Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 17 de julho de 2017 às 20:36

A tática do temor reverencial 

O primeiro-ministro pode, a despropósito, arruinar a imagem e a credibilidade de uma empresa em pleno Parlamento, pelo que mais vale, pelo sim pelo não, ter o primeiro-ministro agradado.

Conhecendo, pela primeira vez nesta legislatura, sérias dificuldades de gestão política, os socialistas recuperaram, em jeito de aviso, a máxima de que "quem se mete com o PS leva", uma declinação do princípio de que qualquer ataque ao PS é um ataque ao regime, à democracia, ao Estado de Direito.

 

Quando se sentem atacados, desmerecidos, os socialistas alinham sempre a mesma estratégia combativa de atemorizar o adversário, mostrando-lhe que está a meter-se com algo grande demais, importante demais. Chamemos-lhe de tática do temor reverencial.

 

Não foi apenas com José Sócrates que essa tática foi utilizada. O ex-primeiro-ministro pode ter-lhe dado nova dinâmica, mas desde Mário Soares que é assim; e há razões históricas para isso, que se fundam no papel do PS na consolidação da democracia, para onde desaguou uma importante parte da nossa intelectualidade e tecnocracia, o que criou uma certa identificação com o regime e uma certa ilusão de transversalidade social e política. Esta forma de reação dos socialistas mantém-se desde 1974 porque resulta, há que reconhecê-lo.

 

Vem isto a propósito de dois sinais políticos sucessivos, aparentemente desligados entre si, e que, do meu ponto de vista, evidenciam a recuperação da tática do temor reverencial para fazer face às dificuldades de gestão política que o Governo e o PS vêm demonstrando após Pedrógão Grande.

 

E que sinais são esses? As acusações de António Costa à Altice em pleno Parlamento e as considerações de Ferro Rodrigues sobre a constituição de três ex-secretários de Estado como arguidos.

 

No primeiro caso, o primeiro-ministro, para responder a uma pergunta que não tinha que ver com as fatídicas falhas durante o incêndio, afirmou o seguinte: "Aliás, espero que a autoridade reguladora olhe com atenção ao que aconteceu com as diferentes operadoras nestes incêndios de Pedrógão Grande. Compreenderá certamente que houve algumas que conseguiram sempre manter as comunicações e houve outra que esteve muito tempo sem conseguir comunicações nenhumas - e isso é muito grave (…). Por mim, já fiz a minha escolha da companhia que utilizo."

 

O que quer isto dizer, quando, como se sabe, o Governo foi até hoje incapaz de encontrar um único sinal de responsabilidade no que se passou em Pedrógão? O que quer isto dizer, desta forma, assim, envolta em imprecisões, quando a pergunta se referia a despedimentos?

 

Quer dizer que o primeiro-ministro quis dar um sinal claro a uma empresa que procura entrar no sector da comunicação social, e que o faz eventualmente sem ter obtido o prévio "agreement" socialista: o sinal de que, em Portugal, e se quiser, o primeiro-ministro pode, a despropósito, arruinar a imagem e a credibilidade de uma empresa em pleno Parlamento, pelo que mais vale, pelo sim pelo não, ter o primeiro-ministro agradado.

 

No segundo, o presidente do nosso Parlamento, órgão de soberania que encarna o poder legislativo, decidiu, escudando-se numa opinião pessoal, comentar processos judiciais em curso, sentenciando como se não estivesse a quebrar o princípio da separação de poderes. 

 

O que quer isto dizer, quando, como se sabe, Ferro Rodrigues apenas sentencia quando os processos afetam socialistas?

 

Quer dizer que o presidente da Assembleia da República está disposto a politizar o que for necessário para, pressionando publicamente, deslegitimar a condução do processo, protegendo os seus correligionários.

 

Estes dois sinais evidenciam, assim, duas coisas: que o PS pela primeira vez nesta legislatura se sentiu atacado e abalado e que há velhos vícios de que o PS não está disposto a abdicar no debate político.

 

Advogado

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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comentários mais recentes
Anónimo 18.07.2017

Não é na praça que se resolvem os problemas ... a não ser para alimentar os comentários alarves que se proliferam nas redes sociais.

Helena 18.07.2017

Arruinar a imagem da empresa? A credibilidade? Um PM? Mas em que mundo é que vive o colunista?

Outro 18.07.2017

Que gosta de despedimentos Que lixo de gente

Anónimo 18.07.2017

Desde quando dizer a verdade é arruinar a imagem ou a credibilidade de alguém?

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