Fernando  Sobral
Fernando Sobral 24 de janeiro de 2018 às 20:12

A teoria dos afectos

Marcelo trouxe consigo uma nova ética política, nestes tempos em que o poder já não pode estar escondido atrás dos biombos do segredo. António Costa está a aprender a conviver com isso.

Na primeira aventura do Padre Brown, escrita em 1910, G. K. Chesterton apresentou-nos um "colosso do crime", o francês Flambeau, que utilizava vários truques em seu proveito. Colocava marcos do correio falsos na esperança de conseguir que alguém ali depositasse cartas com dinheiro. E dirigia uma falsa empresa do leite que tirava os recipientes da bebida das casas onde eram deixados por empresas legais e os colocava nas residências que tinham contratado os serviços de Flambeau. Estes métodos têm sido utilizados, ao longo dos anos, e de forma mais democrática, por muitos políticos. A política também pode ser o reino da ilusão. Em Portugal, assistimos a este teatro de sombras há muito. Não deixa de ser curioso como, desde há dois anos, se as fórmulas de actuação política não se modificaram, o optimismo e o afecto permitiram transmitir uma mutação da forma como os portugueses olham para a política. Do optimismo encarregou-se António Costa. O afecto ficou entregue a Marcelo Rebelo de Sousa.

 

O Presidente da República introduziu um novo ritmo aos insossos dias políticos nacionais. Mais notórios depois da versão da presidência como um exercício de recato que foi transmitida por Cavaco Silva. Marcelo transformou o cargo num exercício consciente de "soft power", um ritual de popularização do poder. A imprevisibilidade é a sua grande virtude. A sua presença constante é uma forma de oferecer segurança, algo que o país desconhecia. O seu realismo político obriga a humidade e a reconhecimento dos erros no momento. E o executivo de António Costa já percebeu isso, especialmente depois da sua deficiente atitude face aos incêndios. Marcelo trouxe consigo uma nova ética política, nestes tempos em que o poder já não pode estar escondido atrás dos biombos do segredo. António Costa está a aprender a conviver com isso. Resta agora saber se esta teoria dos afectos se aplicará também à oposição de Rui Rio, porque Marcelo gostaria de um aproximar crescente entre PS e PSD. O seu afecto também é estratégico.

 

Grande repórter

A sua opinião1
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
comentar
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentários mais recentes
Mr.Tuga 25.01.2018

Certo.

Mas "afectos e optimismo" em excesso torna-os imprudentes.

pub