Fernando  Sobral
Fernando Sobral 25 de julho de 2017 às 20:41

A tosse convulsa

A transparência desde o primeiro minuto teria dado muito jeito para se evitar este momento digno de uma feira ambulante, onde em vez de carrinhos de choque se utilizam vítimas. Este momento.

Um dos mais esquecidos escritores portugueses, Manuel Laranjeira, viu como poucos, no início do século XX, os dilemas do nosso país: "O mal da sociedade portuguesa é apenas este - a desagregação da personalidade colectiva, o sentimento de interesse nacional abafado na confusão caótica dos sentimentos de interesse individual." Ler o que escreveu há mais de um século é entender o que estamos a observar nestes dias em que o fogo vai calcinando o que resta do verde nacional, a cor da esperança e do mar que ocupa a nossa bandeira. Pode ser simbólico: mas o verde destruído nas terras do interior é o calcinar da esperança nacional. Face a isso assiste-se a uma libertina ocupação indígena: caçar culpados fáceis, para que alguns possam dormir descansados enquanto o fogo destrói todas as promessas de reformas florestais. Porque, por este andar, no final do Verão pouco restará. O suspiro de fadiga constante do deputado Hugo Soares diz tudo sobre o país: "O Governo tem 24 horas para tornar pública a lista nominativa das pessoas que perderam a vida na tragédia Pedrógão Grande e esclarecer quais foram os critérios." Só faltou o deputado apontar o dedo anunciando o apocalipse se o Governo não divulgar os nomes. Assim ameaça. É a chamada bolha de marmelada. Se rebentar, encherá toda a gente de doce. Incluindo o próprio.

 

Sabe-se que não é o Governo que pode divulgar os nomes. Mas a sensatez diz-nos que o Ministério Público está a defender como segredo de justiça uma coisa absurda. Até para que este tiroteio de mau gosto acabe. A transparência desde o primeiro minuto teria dado muito jeito para se evitar este momento digno de uma feira ambulante, onde em vez de carrinhos de choque se utilizam vítimas. Este momento de tosse convulsa em que se transformou o debate político (chamemos-lhe assim por bondade suprema) merece lágrimas. Pelo meio, o debate sobre o futuro da floresta perdeu-se entre o Lobo Mau e a casa frágil dos três porquinhos. O verde desaparece, torrado, enquanto a classe política lisboeta toca violino.

 

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comentários mais recentes
Mr.Tuga 26.07.2017

Excelente!

E com o verde desaparece também a AGUA DAS BARRAGENS (já nas ultimas)!!! Mas disto, como sempre, fica para quando estiver já no limite e sem solução....
TRISTE sitio de MierdA!

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