José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 17 de maio de 2017 às 20:33

A túlipa de Frankfurt

Draghi refugiou-se no alegado sucesso da política monetária do BCE. Este argumento, porém, não é totalmente convincente, pois durante a formação das bolhas tudo parece maravilhoso, até que deixa de o ser.

A FRASE...

 

"[Sr. Draghi], nós queremos que olhe para esta túlipa antes das suas reuniões."

 

Pieter Duisenberg, Tweede Kamer (Câmara dos Representantes da Holanda), 10 de maio de 2017

A ANÁLISE...

 

Costuma-se dizer que durante a guerra não se limpam armas. Foi nesta lógica que, perante o risco de deflação e de implosão financeira, o BCE rumou aos mares nunca navegados das taxas de juro negativas e da compra de dívida pública em grande escala. Quando este processo começou ninguém questionou seriamente o mérito desta orientação nem alertou para as suas consequências. A verdade é que a situação económica da área do euro melhorou e os riscos de dissolução do euro retraíram. Se isso é consequência direta da atuação do BCE é impossível de dizer, pois falta-nos o contrafactual de que só as ciências laboratoriais podem beneficiar. Mas uma coisa sabemos: ao tornar as condições financeiras artificialmente favoráveis, o BCE favoreceu os devedores em detrimento dos credores, pelo que os países mais poupados sentem-se justificadamente defraudados com a intensidade da política monetária. Foi com este pano de fundo que Draghi se apresentou no parlamento holandês, num exercício de relações públicas semelhante ao que já fez - com grande sucesso - na Alemanha. Acontece que, desta feita, o presidente do BCE foi trucidado.

 

Quase sem exceção, os deputados holandeses mostraram-se críticos do BCE, acusando a autoridade monetária de proteger os países do Sul da Europa em detrimento dos pensionistas holandeses, cujas poupanças passaram a gerar retornos nulos, bem como de incorrer em riscos desmesurados, ao adquirir obrigações dos países financeiramente mais frágeis. Mas o momento mais marcante da sessão foi a oferta de uma túlipa a Mario Draghi por Pieter Duisenberg, filho de Wim, o primeiro presidente do BCE, com a mensagem implícita de que os biliões de euros que o BCE vai injetando estão a criar nos mercados financeiros europeus uma bolha semelhante à gravíssima febre das túlipas holandesas do séc. XVII. Perante a barragem de ataques, Draghi refugiou-se no alegado sucesso da política monetária do BCE. Este argumento, porém, não é totalmente convincente, pois durante a formação das bolhas tudo parece maravilhoso, até que deixa de o ser.

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

A sua opinião0
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar