Álvaro Nascimento
Álvaro Nascimento 14 de dezembro de 2016 às 19:20

A última estatística

As exportações acumuladas de janeiro a outubro de 2016 são incrivelmente semelhantes às do mesmo período de 2015. E o mesmo se diga para os 12 meses terminados no mês de outubro.

A FRASE...

 

"Comércio internacional em queda em outubro."

 

Tiago Varzim, ECO, 9 de Dezembro de 2016

 

A ANÁLISE...

 

Na era da abundância vivemos a voragem das estatísticas, sem refletir pausadamente sobre o conteúdo da informação e as tendências de longo prazo. As estatísticas sobre o comércio internacional recentemente tornadas públicas pelo INE servem de pretexto para ilustrar tantos outros casos que impregnam a imprensa generalista e da especialidade.

 

Vive-se na espuma dos tempos. Reproduzem-se a todo o tempo leituras acríticas e sinais contraditórios sobre as variáveis económicas. Multiplicam-se unidades de medida e abusa-se de taxas de variação, a ponto de confundir os especialistas. Mais preocupante é a insistência na divulgação do último número, esquecendo o contexto, até que chega a próxima variável e nos faz esquecer o valor acabado de divulgar.

 

Muito recentemente, coincidindo com a divulgação do INE, todos os media fizeram eco da queda das exportações no mês de outubro de 2016. Fizeram-no, como se a evolução das variáveis económicas fosse determinística e os valores de curto prazo não estivessem enxameados por um conjunto de fatores de volatilidade vária. Pegando nos mesmos números, é possível contar uma história diametralmente oposta. As exportações acumuladas de janeiro a outubro de 2016 são incrivelmente semelhantes às do mesmo período de 2015. E o mesmo se diga para os 12 meses terminados no mês de outubro.

 

A esquizofrenia das estatísticas e dos números é ainda mais patente quando, ainda há bem pouco tempo, a mesma imprensa anunciava que as exportações haviam crescido 6,6% em setembro de 2016 (por comparação com o período homólogo de 2015). Criando, então, a ilusão de que o setor exportador estava em franco dinamismo económico. Agora, a queda de 3,5% aponta em sentido contrário.

 

Os resultados pontuais são, como é evidente, sensíveis aos pontos escolhidos. Pede-se, por isso, maior rigor e profundidade nas análises, para que a opinião pública possa gradualmente construir expetativas e ganhar confiança, que tão necessária é para o bom desempenho da economia. Os especialistas, esses, podem e devem ler as notas de imprensa do INE.

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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