Edson Athayde
Edson Athayde 24 de julho de 2017 às 21:18

A verdade da mentira

Estudos apontam: nós mentimos em média três vezes por hora. Claro que se o "nós" estiver a referir-se a advogados, políticos, jornalistas e publicitários o número é bem maior. Quem vive do verbo, da retórica, da persuasão, vive de mentir.

"A mentira é, às vezes, tão involuntária quanto a respiração", diz um escritor que acredita na humanidade.

 

"Não ser descoberto na mentira é o mesmo que dizer a verdade", afirma um milionário amoral.

 

"Jamais diga uma mentira que não possa provar", acrescenta um humorista genial.

 

Pouca gente sabe, mas uma das coisas mais poderosas do "storytelling" é a permissão da mentira.

 

Sim. Quem conta um conto tem todo o direito de acrescentar, omitir, exagerar, diminuir um ou mais pontos. Nós, enquanto espectadores, leitores, ouvintes, liderados, agradecemos a patranha e pedimos mais. Gostamos de ser entretidos mais do que gostamos de ser elucidados.

 

"Há três espécies de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas", lembra um intelectual irónico.

 

"Não me importa a mentira, mas odeio a imprecisão", repara um autor meticuloso.

 

"As mulheres e os médicos sabem bem como as mentiras são necessárias aos homens", ri-se o velho romancista.

 

Nos dias que correm, é importante termos em conta a anatomia da mentira. Porque a mentira nada mais é do que a narrativa mais convincente ou mais repetida ou mais veiculada (ou as três coisas juntas).

 

Estudos apontam: nós mentimos em média três vezes por hora. Claro que se o "nós" estiver a referir-se a advogados, políticos, jornalistas e publicitários o número é bem maior. Quem vive do verbo, da retórica, da persuasão, vive de mentir.

 

Antes que aplauda essa minha confissão tenha em mente que posso, aliás, estou a fingir-me sincero só para quebrar as suas resistências ao meu raciocínio.

 

O bom mentiroso é como um bom pescador: lança iscas para atrair os seus peixes.

 

Se a mentira já foi alvo de grande reprovação popular hoje é o ganha-pão de muita gente. É isto que justifica a manchete de jornal espetacular, mas pouco precisa. É isto que explica os sites que vivem de "clickbaits". É isto que sustenta boa parte da indústria da moda (ninguém fica mais ou menos bonito por causa de uma logomarca costurada na parte de dentro de um vestido).

 

São Tomás de Aquino pensou muito sobre o tema e concluiu que há três tipos de mentira: a viciosa, usada para enganar por um motivo vil; a oficiosa, que visa algum bem; e a jocosa, que visa divertir. As duas últimas são pecados veniais (moralmente erradas, mas passíveis de perdão).

 

A linha que separa a verdade da mentira pode ser muito fina. O veneno que transforma a mentira numa calúnia é perigoso pois não tem cheiro, gosto ou cor.

 

Interessei-me pelo tema ao analisar muito do que foi dito (Governo e oposição à mistura) em relação ao que aconteceu em Pedrógão. Algo me diz que São Tomás de Aquino teria um vasto material de pesquisa.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo: "Eu não bebo, eu não fumo, eu não peco. Apenas costumo mentir um bocadinho."

 

Publicitário e Storyteller

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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comentários mais recentes
Anónimo 25.07.2017

É de facto estupidez a mais este comentário. Socorre-se de profissões ou cargos para considerar que todos os seus elementos são iguais. Assim vamos neste país de intelectuais...

surpreso 25.07.2017

Deixa lá ,que tu ajudaste a dar imagem a muitos aldrabões,És mesmo bom....