Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 30 de janeiro de 2017 às 00:01

A vida da geringonça está a mudar, mas não tem de acabar (já)

Numa conversa na semana passada ouvi um analista de rating admitir a sua incredulidade perante a estabilidade e responsabilidade do Governo português nos últimos 14 meses. Como tem sido possível, perguntou? E continuará a ser possível?
Há factores que ajudam a responder à primeira pergunta – os mesmos que sugerem que uma resposta positiva à segunda surge, mas com reservas importantes.

Primeiro: ninguém teve incentivo para roer a corda. A solução parlamentar inédita foi vendida como sendo responsável, estável e duradoura – PS, Bloco e PCP perderiam fatalmente se logo no primeiro ano deixassem ruir o edifício, até porque à direita estão líderes ansiosos por cobrarem essa promessa. Segundo: o acordo tripartido ofereceu um terreno de convergência para forças que são divergentes sobretudo na relação crucial do país com a Europa. Terceiro: as condições económicas (retoma muito moderada) e a conjuntura externa (política do Banco Central Europeu) mantiveram-se favoráveis.

Estes factores estão a mudar. O imperativo de manter o Governo unido ainda existe – nem a meio o mandato vamos – mas tenderá a perder força com o tempo. O quase esgotamento do acordo tripartido coloca os partidos num terreno em que serão mais visíveis as suas divergências. E a pressão no mercado de dívida, que tenderá a crescer consoante o BCE for recuando no programa de compras, significa que a margem para descurar as obrigações orçamentais é escassa.

As fissuras que começamos a ver na "geringonça" são sinais destas mudanças. Em ano de eleições autárquicas, que empurram os partidos para um esforço de diferenciação, veremos mais sinais deste tipo, como prova a iniciativa parlamentar do PCP para a Carris. Mas mesmo com estas dificuldades acrescidas é difícil ver um fim prematuro, próximo e evidente para a legislatura.

Para isso teria de acontecer uma inversão completa no ciclo político ou económico. Um choque externo – nos juros ou na economia – seria uma inversão dessa natureza. Há mais riscos e incerteza, mas a inflação ainda baixa e um ano de eleições cruciais na Europa mantêm como mais provável um cenário de relativa estabilidade. Na política, um resultado esmagador do PS nas autárquicas (que acontecem em cima da votação do Orçamento do Estado para 2018) com uma penalização grande dos aliados à esquerda seria um risco – mas também aqui o cenário central parece ser outro.

Apesar das maiores dificuldades o Governo pode, portanto, ter condições para se aguentar além deste ano – a chave será sempre uma inversão no ciclo. Mas para o analista de rating em questão o ponto importante foi depois outro: a que preço aguenta o Governo? Que tipo de reformas de fundo se pode esperar? E quando param as más notícias extraordinárias que todos os anos fazem subir o rácio da dívida pública?

Estas perguntas já são mais difíceis de responder – algumas dizem respeito à fragilidade estrutural do país, outras à fragilidade desta solução política, outras à fragilidade do projecto da moeda única. Todas nos devem alertar para um ponto: além do mero jogo político sobre a vida da geringonça, o país está numa situação muito vulnerável. E isso, quando se olha para a política, devia ser o centro do debate. 

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico

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comentários mais recentes
Mr.Tuga 30.01.2017

A lua-de-mel esta a acabar!!!
Já não ha reversoes, reposiçoes nem aumentos!
As taxas vao comecar a subir e o preço do barril de petroleo tambem!
Não de bom se aproxima....

helmarques 30.01.2017

Esse analista de rating deve trabalhar na DBRS, só pode, só tem perguntas quando devia ter respostas, são os jornalistas ou os amigos que o esclarecem, penso que deve mudar de ambientes pq pelos vistos não aprende nada e ele não saber a que preços se aguenta o governo acaba por ser ridículo, que faz ele sendo analista? Deve ser um analista de copo na mão e a si tbm não lhe fica bem vir com esta conversa para o jornal.

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