Francisco Veloso
Francisco Veloso 26 de outubro de 2014 às 21:19

A visão de Juncker para a Europa preocupa-me!

Na próxima semana, toma posse a nova Comissão Europeia, a primeira a emergir diretamente dos resultados de eleições para o Parlamento Europeu, e por isso com uma legitimidade reforçada. É também a primeira Comissão com um modelo organizacional mais próximo de um verdadeiro "Governo da Europa."

 

A visão e as prioridades políticas de Jean Claude Juncker para a Europa foram apresentadas num documento inicial de candidatura à presidência da Comissão, e reforçadas no seu recente discurso antes da aprovação da Comissão pelo Parlamento, no que intitulou "Agenda para o emprego, crescimento, justiça e mudança democrática." Nesta agenda, que inclui dez pontos, encontramos vários elementos importantes, incluindo uma preocupação com a ligação mais próxima aos cidadãos, o crescimento económico e uma distribuição mais justa da riqueza, a aposta na liderança Europeia em questões ambientais, ou a realização de um acordo com os EUA para estabelecer a maior zona de comércio livre do mundo.

 

Além destes elementos individuais, existe também a ambição desta Comissão fazer a diferença, algo escrito de forma direta na proposta de agenda de Juncker. E é sobretudo nesta dimensão de visão e inspiração sobre o futuro da Europa que Juncker me deixa preocupado.

 

Ainda antes da crise económica e financeira mundial, que estamos agora a procurar ultrapassar, já existia a percepção de que a Europa está a ficar idosa e estagnada, com pouco arrojo e quase sem brilho. Basta refletirmos sobre a localização dos grandes centros de saber mundiais, ou sobre a origem das "start-ups" que capturam a nossa imaginação e representam a fronteira da inovação. Não é a Europa que associamos a estas dimensões. De facto, com a atual trajetória, existe o risco de a Europa daqui a uns anos ser pouco mais do que um "museu" bem cuidado, que turistas de todo o mundo vêm visitar.  Para inverter esta trajetória, como refere Juncker, "desta vez tem de ser diferente." Mas, para isso é necessário a Europa fazer uma aposta clara, profunda, continuada e arrojada no empreendedorismo, em especial o empreendedorismo de base tecnológica.

 

No entanto, o empreendedorismo e a inovação parecem estar longe das preocupações ou das prioridades de Juncker.  No seu documento, a energia é referenciada mais de vinte vezes, encontramos mais de dez referências a questões monetárias, ou às dimensões de proteção da União. Mas a inovação surge em apenas quatro momentos, o empreendedorismo é apenas referido um par de vezes, e a criatividade não é sequer tema. E nos discursos que proferiu nas duas ocasiões em que sumariou as suas ideias ao Parlamento, estas temáticas não fizeram sequer parte das suas notas. Em contraste, no primeiro elemento da estratégia de Juncker, uma aceleração na capacidade de gerar emprego, crescimento e investimento, surge a promessa de umas centenas de milhares de milhões de investimento, muito dele com uma base pública. Não é esta visão de que a Europa necessita para os próximos cinco anos.

 

A estratégia de Lisboa, que tinha ambição de fazer da europa a economia líder em termos de conhecimento e inovação, falhou. O Horizonte 2020 foi apresentado como o novo desígnio para se criar Europa empreendedora e inovadora. Mas a visão do novo Presidente da Comissão parece afastar-se desse caminho. Fica a esperança de que o Comissário português, que tem a seu cargo estas matérias, consiga incutir no senhor Juncker e em toda a Comissão a premência e importância de fazer da aposta no Empreendedorismo um pilar central do nosso futuro. Por uma Europa e um Portugal diferentes!

 

Diretor da Católica-Lisbon School of Business & Economics

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

 

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