Edson Athayde
Edson Athayde 04 de setembro de 2017 às 19:40

A vitória das andorinhas teimosas

Todos sabemos o quanto o tempo é relativo. Três anos (ou cerca de 1.100 dias) podem parecer anteontem (e são) no calendário da vida, mas também uma eternidade na cronologia dos nossos sentimentos.

No dia 1 de setembro de 2014, regressei a Portugal para viver, depois de seis anos mais ou menos fora.

 

Os humores portugueses eram outros. A crise ainda doía fundo (no bolso e em outras partes do corpo). Eram tempos cinzas, onde o país vivia num movimento de mão única: a saída apontava sempre para o estrangeiro.

 

Nesse ambiente, tive necessidade de me posicionar, de explicar porque eu achava boa ideia voltar.

 

Uma dessas explicações veio na forma de um texto que enviei para os meus colaboradores e amigos. Recupero aqui esta espécie de carta porque o que parecia excesso de otimismo provou-se não o ser. O texto dizia assim:

 

"Qual o meridiano que separa a boa onda da insensatez?

 

Das janelas do meu escritório dá para ver lá fora um mundo com um tanto de amargor e de resignação.

 

Falso turista nesta que é (também) a minha terra, faço ouvidos moucos ao azedume, tentando oferecer 'good vibes' como ramos de alecrim.

 

Sei que o verão já finda e outono espreita. Mas quem disse que uma só andorinha não faz a primavera?

 

Suponho que há outras andorinhas voando por aí nesse céu de azul tão único que temos. Acredito que muitas delas estão ao meu lado. E é para elas, andorinhas teimosas, que fazem de trazer o bom tempo um propósito de vida, que escrevo algumas frases soltas para ajudar na tarefa.

 

Companheiros, acreditem que é possível achar algo (ou alguém) em que valha a pena acreditar. Duvidar, como todos os bons remédios, só funciona na dose certa.

 

Não permitam que o cinismo entre nas vossas correntes sanguíneas. Se isso ocorrer, sugiro alguns antídotos: sardinhadas à beira do rio, abraços de filhos ou amigos, beijos da pessoa amada e alguma poesia.

 

Parafraseando um poeta, é preferível morrer de rimas do que de tédio.

 

Aliás, não morram. Nem na vida, nem na praia. Tomem pulso da própria história. Cobrem. Sejam exigentes. Ser romântico não implica ser bobo.

 

 Caras andorinhas teimosas, mãos à obra.

 

Atravessem nuvens, janelas, mentes, ouvidos. A vossa missão (a minha missão) não é esgrimir argumentos lógicos, não é ter razão, não é ganhar debates, é sim fazer alguma primavera (mesmo que ínfima) no inverno dos cépticos.

 

Eles podem até não saber disso, mas estão bem a precisar.

 

Ou como diz o meu Tio Olavo: "Se não houver fruto, valeu a tentativa da flor. Se não houver flor, valeu a existência da árvore. Se não houver árvore, valeu a intenção da semente."

 

Publicitário e Storyteller

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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