Anatole Kaletsky
Anatole Kaletsky 08 de junho de 2017 às 09:00

A vitória pírrica de Theresa May

Em 2022, os eleitores britânicos podem perfeitamente ser decidir que reintegrar uma UE a duas velocidades é muito mais atractivo do que suplicar por uma parceira júnior com os Estados Unidos.

As eleições britânicas convocadas pela primeira-ministra, Theresa May, para 8 de Junho vão transformar o panorama da política do Reino Unido e as suas relações com a Europa, mas não necessariamente da forma que a vasta maioria do Partido Conservador de May parece sugerir. A grande derrota que os conservadores eurocépticos esperam infligir às forças britânicas internacionalistas e progressivas foi simbolizada na manchete do Daily Mail, aquando do anúncio de eleições feito por May: "Arrasar os sabotadores". Mas uma vitória retumbante pode levar, em última instância, a uma inversão ainda mais espantosa, como a arrogante marcha de Napoleão sobre Moscovo depois de ter destruído toda a oposição na Europa ocidental.

 

As forças britânicas progressivas e pró-europeias poderiam, ainda assim, arrancar uma vitória das mandíbulas da derrota, por três razões que se relacionam mutuamente.

 

Primeiro, ao antecipar eleições, May prolongou efectivamente o prazo-limite para a saída da União Europeia, de 2019 para 2022. As eleições antecipadas tornam inevitável que o Reino Unido abandone formalmente a UE em Março de 2019, porque May já não terá de enfrentar a hipótese teórica de oposição parlamentar. Mas isso também permitirá ao Reino Unido aceitar um longo período de transição depois da data-limite de 2019 para a saída, pelo que as empresas e sistemas de administração poderão ajustar-se a quaisquer termos que até lá venham a ser acordados.

 

Lóbis empresariais britânicos, tal como os membros do governo encarregados da implementação, têm feito pressão no sentido de este período de transição ser o mais longo possível. A UE, porém, insistiu para que, durante o período de transição, todas as actuais obrigações enquanto país-membro da União se mantenham, incluindo as contribuições orçamentais, o livre movimento do trabalho e as decisões judiciais da UE.

 

Até as eleições serem convocadas, parecia quase impossível reconciliar a necessidade da comunidade empresarial de um período longo de transição com a insistência dos conservadores eurocépticos em romper completa e imediatamente com a UE. Uma vitória eleitoral esmagadora dará a May a autoridade necessária para negociar uma transição longa, apesar das objecções de extremistas anti-UE, e irá persuadir os eurocépticos mais moderados de que, com o Brexit já garantido, o timing exacto de várias obrigações relativamente a Bruxelas é menos importante.

 

Como resultado, apesar de o Reino Unido ter de deixar formalmente de ser membro da UE até Março de 2019, muito pouco irá mudar na economia britânica e no modo de vida do país antes de chegarem as próximas eleições gerais, em 2022. Neste sentido, a decisão de May de convocar eleições antecipadas é um revés para os eurocépticos extremistas, que podem, pelo contrário, tê-la forçado a romper completamente com a Europa até Março de 2019.

 

Esta questão está relacionada com uma segunda razão, que passa por saber o porquê de o iminente triunfo dos eurocépticos britânicos poder acabar por redundar numa vitória pírrica. Considerando que as eleições antecipadas vão adiar as reformas económicas, irão também acelerar consideravelmente a transformação da política britânica.

 

O principal partido da oposição, o Partido Trabalhista, tem estado em bicos de pés desde 2015, mas poderia sobreviver à actual condição de zombie até que fossem convocadas novas eleições. Uma vez que as próximas eleições estavam previstas para 2020, era possível que nesses três anos fossem vistos desenvolvimentos imprevisíveis que permitissem ao Labour reavivar. Mas, ao antecipar eleições, May antecipou também a desintegração do Labour, eliminando virtualmente as suas possibilidades de reanimar.  

 

Quando o Partido Trabalhista colapsar depois da derrota, vai tornar-se quase certo um progressivo realinhamento da política britânica. É provável que esse realinhamento, unindo políticos trabalhistas desiludidos e eleitores dos liberais-democratas, Verdes e, talvez, nacionalistas escoceses e galeses, produza uma oposição muito mais forte do que aquela que May actualmente enfrenta, mesmo que venha a deter menos assentos parlamentares.

 

Quando chegar a altura das próximas eleições, mais provavelmente em 2022, as forças políticas britânicas internacionalistas e progressistas terão tido cinco anos para se prepararem para a oposição ao conservadorismo e nacionalismo de May. Nessa altura, os conservadores terão estado no poder há três parlamentos e 12 anos. Tipicamente, é mais ou menos esse o período de tempo que o pêndulo político do Reino Unido demora a oscilar entre a direita e a esquerda.

 

Além disso, devido ao mais longo período de transição para o Brexit, tornado possível pelas eleições antecipadas, só por volta de 2022 é que serão perceptíveis as reais consequências do fim da pertença à UE, assim como as contradições existentes na coligação do Brexit, entre libertários defensores de trocas comerciais livres e nacionalistas proteccionistas e socialmente conservadores. Entretanto, os esforços de negociação de acordos de livre-comércio com os Estados Unidos e a China terão já revelado as fragilidades da posição de regateio do Reino Unido. Daqui resultará que a opinião pública favorável ao Brexit poderá ter mudado substancialmente em 2022. Em qualquer dos casos, a relação em mutação com a Europa será a questão central em torno da qual se poderão unir as forças liberais em temas sociais e politicamente internacionalistas depois da respectiva derrota.  

 

Supondo que, no entretanto, a UE continua a sua recuperação económica. Supondo, além disso que, depois das eleições francesas e alemãs deste ano, uma mais forte parceira franco-alemã conduz a Zona Euro em direcção a uma maior integração política, que é obviamente necessária para o sucesso da moeda única, ao passo que Dinamarca, Suécia e Polónia deixam claro não terem intenção de alguma vez integrarem o euro. Em 2022, os eleitores britânicos podem perfeitamente decidir que reintegrar uma UE a duas velocidades é muito mais atractivo do que suplicar por uma parceira júnior com os Estados Unidos, para não mencionar a China. É esta a terceira razão para que os eurocépticos conservadores britânicos possam acabar por lamentar o seu iminente triunfo eleitoral.

 

Independentemente do que venha a acontecer, a batalha decisiva na guerra do futuro a longo prazo do Reino Unido não será a fácil vitória de May neste ano. Será o choque, dentro de cinco anos, entre o conservadorismo nacionalista e uma nova oposição progressista voltada para o exterior.

 

Anatole KaletskyAnatole Kaletsky é economista-chefe e co-chairman da Gavekal Dragonomics e o autor de Capitalism 4.0, The Birth of a New Economy.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

 

Tradução: David Santiago

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