Bernhard Brunner
Bernhard Brunner 05 de Dezembro de 2016 às 10:00

A volatilidade como classe de ativos

A partir daqui, podemos concluir que a volatilidade enquanto classe de ativo oferece vantagens potenciais de diversificação face às classes tradicionais de ativos.
Os investidores costumavam encarar a volatilidade em primeiro lugar como uma fonte de risco. Segundo a sua experiência, o risco de que as flutuações nas avaliações poderiam pôr em causa os rendimentos aumentava face à brevidade do horizonte de investimento de uma carteira. Contudo, esta perspetiva é bastante restritiva. A volatilidade - o fenómeno de flutuação nas avaliações de ativos em mercados de capitais e financeiros - entretanto evoluiu para a sua própria classe de ativos, com condições favoráveis.

Para descrever os elementos-chave de uma estratégia de ativos de volatilidade, temos primeiro que definir o que quer exatamente dizer volatilidade e prémio de risco. A volatilidade surge, muito simplesmente, em diferentes formas e dimensões. Uma distinção é feita, particularmente, entre a volatilidade realizada e implícita. A volatilidade realizada define-se como o desvio normalizado (standard) do desvio dos (logaritmizados) rendimentos gerados por um investimento. A volatilidade implícita é, em contraste, um termo que deriva da teoria do preço de opções e descreve a volatilidade que conduz diretamente ao preço de mercado da opção - habitualmente utilizado num modelo de "pricing" de opções, o Black-Scholes. Muitas vezes, é também entendida como a futura volatilidade realizada (esperada pelo mercado).

Esta interpretação é, contudo, apenas correta se as premissas subjacentes ao modelo Black-Scholes se mantiverem na vida real, o que não é habitualmente o caso. Isto porque em mercados reais, ao contrário do universo teórico, as comissões de transação são cobradas, os preços dos títulos não se distribuem de forma normal, as taxas de juro são aleatórias, etc.

Probabilidade de longo prazo para um prémio de risco positivo.
A diferença entre volatilidade realizada e implícita é conhecida geralmente como prémio de risco da volatilidade. Comparando os prémios de riscos das ações com a volatilidade (ações) observamos que o prémio de risco das ações depende do rendimento realizado, enquanto que o prémio de risco da volatilidade é influenciado pelos rendimentos ao quadrado. Como tal, o prémio de risco da volatilidade (ações) pode ser visto com uma extensão lógica do prémio de risco das ações dado que responde, da mesma forma, a retornos elevados positivos e negativos das ações. A partir daqui, podemos concluir que a volatilidade enquanto classe de ativo oferece vantagens potenciais de diversificação face às classes tradicionais de ativos.

Vender volatilidade é chave
Conseguimos inclusivamente observar uma correlação negativa fundamental entre o mercado de ações e a sua volatilidade. Por outras palavras, quando os preços na Bolsa caem, habitualmente a volatilidade (implícita) cresce significativamente. Esta correlação negativa sugere que o efeito máximo de diversificação pode ser atingido através da compra de volatilidade (implícita). Ao fazê-lo, o grande aumento na volatilidade que ocorreria se a Bolsa fosse cair compensaria as quedas no preço de uma carteira de títulos. Os investidores não deveriam, contudo, deixar-se deslumbrar pelos atributos de diversificação positivos da volatilidade.
A questão-chave é o preço a pagar para extrair os benefícios da diversificação. Uma vez que este preço constitui um prémio de volatilidade negativo, o investimento direto em volatilidade pode tornar-se muito oneroso no longo prazo. Isto é claramente demonstrado no gráfico abaixo, que rastreia automaticamente o prémio de volatilidade negativo no EuroStoxx50 ao longo dos últimos 16 anos. A diferença foi, em média, de -3.6 pontos de volatilidade. É por isso que há diversos outros estudos, além do nosso, que também demonstram que, numa perspetiva de custo/benefício, este preço de cobertura não justifica a compra de volatilidade. Em vez disso, faz mais sentido, numa perspetiva da carteira, auferir um risco adicional de prémio pela venda de volatilidade.

Ganhos ultrapassam claramente as perdas no longo prazo.
A curva típica da volatilidade enquanto classe de ativos é facilmente reconhecida e assemelha-se às políticas de venda de seguros: muitos pequenos ganhos intercalados com algumas, mas bastante graves, perdas quando os mercados caem. Contudo, de forma agregada e em períodos mais alargados, os ganhos ultrapassam claramente as perdas, resultando num perfil atrativo de risco/rendimento.
A diversificação favorecida numa perspetiva de carteira. Enquanto classe de ativo, e de uma perspetiva de carteira, a volatilidade apresenta-se como uma opção promissora, pois oferece vantagens adicionais ao nível da diversificação. Acima de tudo, é a sua imunidade às tendências das taxas de juro que tornam esta classe de ativos atrativa, independentemente das taxas de juro estarem baixas ou a subir. Mais, devido às suas características atrativas - basicamente, um perfil atrativo de risco/prémio com benefícios de diversificação num contexto de carteira, especialmente em ambiente de baixas taxas de juro - a volatilidade enquanto classe de ativos deveria ser um elemento de base em qualquer alocação estratégica de ativos.


Este artigo foi redigido ao abrigo do novo acordo ortográfico.


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