Sandra Clemente
Sandra Clemente 19 de Outubro de 2016 às 19:21

À beira-mar plantados

Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros. Se ficou com vontade de rir leia as entrevistas do ministro das Finanças desde a apresentação do Orçamento do Estado e pense bem.

Nenhum animal dormirá numa cama. Nenhum animal beberá álcool. Nenhum animal matará outro animal. Todos os animais são iguais. Depois de terem tomado o poder, os animais da quinta do Orwell mudaram estes seus quatro mandamentos para: nenhum animal dormirá numa cama, com lençóis. Nenhum animal beberá álcool, em excesso. Nenhum animal matará outro animal, sem motivo. Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros. Se ficou com vontade de rir leia as entrevistas do ministro das Finanças desde a apresentação do Orçamento do Estado e pense bem. E lembre também que Portugal viveu intervencionado entre 2011 e 2014, e já não vive. Começou este Governo por garantir que a austeridade em Portugal tinha chegado ao fim em 2015. Neste jornal, Centeno disse agora que: "Vamos ter de viver numa restrição orçamental muito bem definida." Depois são as acusações de Centeno e Galamba ao brutal aumento de impostos dos anos anteriores.

 

Deduz-se que não era preciso e que, uma vez no Governo, acabariam com ele. Já nem discutindo se os impostos subiram, vou limitar-me a citar o atual ministro das Finanças, no Expresso deste fim de semana. Constatando o jornalista que o entrevistou que "a carga fiscal quase não desce…", Centeno respondeu que "era o que era possível fazer". Diz-se que o último jantar de Estado na Casa Branca serve para enviar um sinal ao mundo. Obama convidou Renzi, um primeiro-ministro europeu novo, com um país com a economia estagnada, que subiu ao poder a prometer mudá-lo e se viu atascado num sistema resistente a reformas, tendo convocado um referendo para mudar o sistema político que o pode deixar sem emprego em dezembro. Em Portugal, o Governo resolveu, ele próprio, resistir às reformas e, como expoente máximo, escolheu esta semana Vieira da Silva, um ministro que garantiu que a Segurança Social não precisa de reforma por ter adiado o défice por mais seis anos. Maior sinal do que pode ser o nosso futuro é, de facto, difícil de conceber.

 

Jurista

 

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