Robert Shiller
A comunidade imaginada do euro
09 Abril 2012, 23:30 por Robert Shiller
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Mesmo as transacções electrónicas devem poder gerar símbolos de paz, confiança e unidade. Se a Europa conseguir manter esses símbolos vivos, nem sequer um desmoronamento da Zona Euro terá as graves consequências políticas para a Europa que tantos prevêem.
Tem sido atribuída uma grande importância – talvez demasiada – a um possível desmoronamento da Zona Euro. Muitos acreditam que uma tal ruptura – se, por exemplo, a Grécia sair do euro e reintroduzir o dracma – constituiria um fracasso político que acabaria por ameaçar a estabilidade da Europa. Perante o Bundestag, no passado mês de Outubro, a chanceler alemã Angela Merkel colocou as coisas de forma clara:

"Ninguém deve crer que está garantido mais meio século de paz e prosperidade na Europa. Não está. Por isso, digo: se o euro fracassar, a Europa fracassa. Isso não pode acontecer. Temos a obrigação histórica de proteger, através de todos os meios prudentes ao nosso dispor, o processo de unificação da Europa iniciado pelos nossos antepassados há mais de 50 anos, depois de séculos de ódio e de derramamento de sangue. Nenhum de nós pode prever quais as consequências no caso de fracassarmos".

A Europa teve mais de 250 guerras desde o início do Renascimento, em meados do século XV. Por isso, não é alarmista preocuparmo-nos em preservar o sentido de comunidade de que a Europa desfrutou nos últimos 50 anos.

Num livro fascinante, mas em grande medida subestimado, intitulado "How Enemies Become Friends", Charles A. Kupchan analisa muitos casos históricos sobre a forma como os Estados-nação com uma longa história de conflitos acabaram por conseguir tornar-se amigos seguros e pacíficos. Entre os exemplos que Kupchan aponta, está a formação da Confederação Suíça (1291-1848); a criação da Confederação Iroquesa no século anterior à chegada dos primeiros europeus à América; o estabelecimento dos Estados Unidos (1776-1789); a unificação de Itália (1861) e da Alemanha (1871); a aproximação Noruega-Suécia (1905-1935); a formação dos Emirados Árabes Unidos (1971); e a aproximação Argentina-Brasil na década de 1970.

Kupchan analisa também alguns notáveis fracassos de relações de amizade: a Guerra Civil nos Estados Unidos (1861-65); o fim da aliança anglo-japonesa (1923); a ruptura das relações sino-soviéticas (1960); o desaparecimento da República Árabe Unida (1961); e a expulsão de Singapura da Malásia (1965).

Kupchan nunca menciona uma moeda única como condição para a aproximação entre nações; de facto, a integração económica tende a suceder-se à unidade política, em vez de a preceder. Em vez disso, ele considera das relações diplomáticas como o elemento essencial para os acordos estratégicos e para a confiança mútua, e isso é mais fácil de obter se os Estados tiverem o mesmo tipo de organizações sociais e similaridades étnicas.

No entanto, a análise de Kupchan pressupõe que uma moeda comum pode ajudar os Estados--nação a construir amizades duradouras, uma vez que o autor argumenta que a capacidade de aproximação é mais segura depois de uma determinada "narrativa" de mudança de identidade criar raízes, produzindo a sensação de que as nações são como membros de uma família. Uma moeda comum pode ajudar a criar essa narrativa.

A título de exemplo, os iroqueses contam a história de um grande guerreiro e experiente orador chamado Hiawatha, que, ao viajar com o místico Deganawidah, negociou os tratados que criaram a sua confederação comum. Ele defendeu novas cerimónias de luto para celebrar os guerreiros perdidos – e para substituir as guerras de vingança.

A nova narrativa desta confederação foi reforçada com símbolos físicos (como é o caso de uma moeda ou de uma bandeira) sob a forma de cinturões "wampum", onde eram enfiadas ou tecidas contas feitas com "conchas de moluscos marinhos" – que é o significado original de "wampum" - e que foram usadas como um tipo de moeda dos iroqueses. Um cinturão de Hiawatha, que sobreviveu e que data do século XVIII (e provavelmente uma cópia de cinturões mais antigos), contém símbolos das cinco nações – Séneca, Cayuga, Onondaga, Oneida e Mohawk – tal como a bandeira dos EUA tem estrelas que representam cada um dos seus Estados. O cinto também preserva o estatuto de Hiawatha como fundador da confederação.

As bandeiras podem constituir um símbolo mais inspirador de um destino comum, mas a maioria de nós não anda de bandeira na mão e muitas pessoas nunca as exibem, excepto talvez em eventos desportivos importantes; a origem das bandeiras, nos estandartes de guerra, pode parecer desconfortavelmente agressiva. Existe uma bandeira da União Europeia, mas raramente é vista noutros locais além das fachadas dos edifícios governamentais da UE.

Uma professora britânica expressou bem esse sentimento em 1910, quando disse: "suspeitamos do indivíduo que fala de patriotismo e de imperialismo, tal como suspeitamos de quem fala de religião ou de algum dos aspectos a que mais damos valor na vida. Vemo-lo como um farsante ou um indivíduo superficial que não se deu conta da insuficiência das suas palavras para expressar o que de mais profundo existe".

E no entanto, a moeda nacional – que mostramos de cada vez que efectuamos um pagamento em dinheiro – não levanta essas suspeitas. Funciona como um lembrete constante da identidade. Ao usarmos o dinheiro, vivemos a experiência psicológica de participar, juntamente com outras pessoas, numa aventura comum, desenvolvendo assim um sentido de confiança no esforço e em quem nos acompanha nesse esforço.

Cada união monetária escolhe símbolos com valores culturais comuns para as suas moedas e notas e esses símbolos tornam-se parte do sentido de identidade partilhada. Vemos tão constantemente os rostos humanos nas notas que eles acabam por parecer da nossa família, criando aquilo a que o politólogo Benedict Anderson chamou de "comunidade imaginada", que está inerente e alimenta o sentimento de nacionalidade.

As notas de euro são ilustradas por pontes europeias de diversas épocas, em vez de imagens de estruturas reais que poderiam indiciar alguma preferência em relação a determinados países. A cidade de Spijkenisse, na Holanda, está actualmente a construir as sete pontes ilustradas nas notas de euro. No entanto, essas pontes continuam a ser símbolos da cultura europeia que se supõe que todos os europeus partilhem.

A tecnologia electrónica moderna não acabará para já com as notas e as moedas, pelo que há ainda muito tempo para dar uso ao valor simbólico de uma moeda comum. Com efeito, mesmo que a Zona Euro se desmorone, cada país europeu poderá adoptar uma moeda diferente nas manter os símbolos comuns. A título de exemplo, pode haver um euro grego, um euro espanhol, etc. As notas poderiam até ter as mesmas imagens das pontes.

Mesmo as transacções electrónicas devem poder gerar símbolos de paz, confiança e unidade. Se a Europa conseguir manter esses símbolos vivos, nem sequer um desmoronamento da Zona Euro terá as graves consequências políticas para a Europa que tantos prevêem.


Project Syndicate, 2012.
www.project-syndicate.org
Tradução: Carla Pedro




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