Neil Dwane
Neil Dwane 10 de Outubro de 2016 às 09:46

A desglobalização já está aqui. Agora temos de lidar com ela

A política nunca é certa. Mesmo assim, do Brexit a uma inquietada Zona Euro, até à retórica isolacionista que está a permear as eleições norte-americanas, um facto é claro: os mantras anteriores da globalização e da desregulação estão a ganhar uma oposição crescente.
Os eleitores de todo o mundo desenvolvido estão a manifestar a visão de que os benefícios de operar a uma escala internacional são compensados por salários mais baixos, perspetivas mais fracas de emprego e uma desigualdade crescente. Este sentimento geral ainda não forçou a globalização a uma reversão. Porém, o seu abrandamento tem implicações significativas para cidadãos, governos e também investidores.

Em primeiro lugar, menos comércio global significa menos crescimento global. Os políticos estão a retroceder em diversos acordos de comércio global atualmente em discussão, como a Parceria Trans-Pacífico (TPP) e a Parceria Transatlântica para o Comércio e o Investimento (TTIP). Isto vai, inevitavelmente, acrescentar areia às engrenagens globais. Com o comércio global a constituir aproximadamente 40 por cento do Produto Interno Bruto global, este fenómeno poderia abrandar o crescimento económico numa altura em que está já fragilizado. Se o comércio global fosse uma economia, seria a maior de todo o mundo - quase o dobro da economia norte-americana -, mas isto é algo pouco examinado desta maneira pelos legisladores.

Em segundo, a responsabilidade corporativa precisa ser redefinida. Muitas empresas multinacionais têm beneficiado de décadas de globalização, especialmente em termos de comércio e finança. Se a política favorecer, de forma crescente, as marcas locais e obrigar à aplicação de impostos localmente, isso representará uma perturbação real. De forma mais imediata, disputas como a recente Apple/Comissão Europeia sobre regras fiscais poderiam aumentar as fricções fiscais inter-regionais, impedindo a alocação de capital e reduzindo os rendimentos para os acionistas. As equipas de gestão que conseguem trabalhar com os governos para assegurar a responsabilidade corporativa - entendida da maneira mais vasta possível e além do seu impacto em lucros por ação - são mais propensas a compensarem-se a si próprias e aos seus acionistas.

Em terceiro, os políticos no mundo desenvolvido terão em breve de confrontar o custo e o financiamento dos seus sistemas de Estado social. A alternativa passa por arriscar verem os seus filhos millennials revoltarem-se contra o honrar das promessas não-financiadas feitas aos seus pais. Atualmente, estas reformas estruturais estão a eludir em países desafiados demograficamente, como o Japão e a maioria da Europa. É improvável que a des-globalização resolva esta questão. Mesmo nos EUA, a presente dívida pendente face ao nível de 100% do PIB acaba atenuada pelos direitos não contabilizados, que perfazem mais de 130 triliões de dólares (116 triliões de euros) ou 500 por cento do PIB norte-americano. Quanto mais tempo estes desafios ficarem por responder, maiores se hão de tornar.

Finalmente, os estímulos fiscais deveriam ser fiscalmente responsáveis. Os fracos níveis de crescimento económico global estão a ser satisfeitos com pedidos crescentes de despesa fiscal e de infraestrutura ao nível local. No entanto, estes deveriam ser compensados com idênticos níveis de preocupação sobre a capacidade para tais gastos. Serão com certeza necessários investimentos massivos nas grandes economias do futuro, como a Índia, Indonésia e África, para não mencionar a reparação e a manutenção necessárias no mundo desenvolvido. Todavia, ao invés de serem financiados por mais dinheiro emprestado, estes investimentos deveriam ambos cobrir os custos de financiamento e acrescentar prosperidade económica e produtividade a estas regiões. De outra forma, equivalem apenas a esquemas Ponzi.

Para muitos, a nossa perspetiva secular do Ocidente de um mundo moderno e estável, sob a Pax Europae e a Pax Americana, parece estar a chegar ao fim. Arriscamo-nos a que, em seu lugar, regressemos a uma versão de países e Estados que precede as soluções coesas da nossa era pós-Segunda Guerra Mundial. E é apenas através de soluções que reconheçam as fraquezas da globalização, mas que dividam mais equitativamente os despojos ao longo e dentro das fronteiras, que conseguiremos evitar mais tensão política.


Este artigo foi redigido ao abrigo do novo acordo ortográfico.


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Anónimo 10.10.2016



PS . BE . PCP são uns PHILHOS DE PHU TA que xupam o sangue ao POVO...

para dar mais dinheiro e privilégios aos FP & CGA.


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