Ulisses Pereira
A fuga para a frente do BCP
11 Junho 2012, 10:20 por Ulisses Pereira | ulisses.pereira@difbroker.com
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A acção que mais vezes analisei nos meus artigos foi, sem dúvida, o BCP. Fi-lo por ser uma das acções mais mediáticas da Bolsa portuguesa
A acção que mais vezes analisei nos meus artigos foi, sem dúvida, o BCP. Fi-lo por ser uma das acções mais mediáticas da Bolsa portuguesa, por ser o exemplo da queda de um verdadeiro império e por ser um verdadeiro "case study" da forma como os investidores levam as emoções e os sentimentos sobreporem-se à razão, conduzindo a resultados decepcionantes.

Ao longo dos últimos anos, tenho estado pessimista em relação ao BCP. Depois de cada análise sobre o BCP, recebi sempre inúmeros e-mails de leitores chocados com o meu negativismo e a refutarem a minha opinião com o argumento de que "o BCP está ao preço da chuva e não pode cair mais". Estas reacções aconteceram quando o BCP estava a 2 euros, a 1 euro, a 50 cêntimos ou a 20 cêntimos. O optimismo dos pequenos investidores parecia não ter fim.

Num desses e-mails, um leitor escrevia que "O Ulisses só vai ficar optimista quando o BCP chegar quase a zero", ao que respondi que "mesmo próximo do zero, só quando o BCP mostrar força é que eu fico optimista sobre a acção. Após o anúncio do novo plano de capitalização do BCP, na passada semana, a cotação atingiu um novo mínimo histórico, causando mais um choque entre os pequenos investidores e, coerente com o que tenho vindo a dizer, não é essa aproximação do zero que me faz mudar de posição.

Citando, o Negocios.pt, "O plano de capitalização do BCP consiste na subscrição de obrigações de conversão contingente ("CoCos") por parte do Estado, no montante de 3 mil milhões de euros, mais um aumento de capital de 500 milhões de euros, que será garantido pelo Estado (a 0,04 euros por acção) na parte não subscrita pelos investidores privados. O preço do aumento de capital a subscrever pelos privados ainda não está fixado."

Uma empresa que, ao preço a que está cotada, vale pouco mais de 600 milhões de euros, faz um aumento de capital de 500 milhões e emite 3 mil milhões de euros em "Cocos" está a colocar-se nas mãos de terceiros. Quando, há muitos meses atrás, escrevi que o mercado acreditava que o BCP ia ser nacionalizado, recebi os e-mails mais insultuosos de que me recordo. Hoje, o BCP está - mais do que nunca - perto desse cenário. Mesmo considerando que o aumento de capital corra bem, o BCP tem que pagar com taxas de juro dos Cocos nunca menos de 8,5% ao ano. Isto significa que, se não conseguir gerar resultados líquidos perto dos 400 milhões de euros por ano durante os próximos 5 anos, o Millennium não conseguirá pagar as obrigações resultantes desses "Cocos", o que levaria à conversão dessas obrigações em acções e, consequentemente, ocorrerá a entrada em força do Estado no capital do Banco.

Ou seja, esta operação é a última tentativa de fuga do BCP à sua nacionalização. Não é um acto desesperado. É um acto racional de quem sabe que a outra alternativa era fazer um aumento de capital em que o Estado entrasse com a fatia de leão. Seria o fim do BCP como grupo privado.

Apesar de tudo, acho muito difícil que o final da história não seja o mesmo. Para o BCP gerar lucros suficientes para poder pagar os compromissos assumidos com os "Cocos", será preciso que rapidamente a economia mundial dê uma reviravolta improvável. Por isso, continuo a defender - tal como há muitos meses atrás - que o mais provável é que cada contribuinte português seja o futuro dono do BCP.

Há uns meses atrás, Marcelo Rebelo de Sousa dizia que vinham "charters de chineses", que a acção estava em saldos e que era óbvio ser uma excelente oportunidade. Hoje, a acção vale metade do que valia nessa altura. Onde andam os chineses? Onde andam os saldos?

Quando a acção baixou da mítica marca de 1 euro, muitos foram aqueles que disseram que, abaixo de um euro, comprar BCP seria sempre um grande investimento a longo prazo. Quem comprou a esse valor, precisa agora que a acção suba mais de 1000%. Sim, mil por cento!

Talvez este seja um artigo frio. Cruel. Mas, no mundo dos mercados financeiros, deixar que os sentimentos nos comandem conduz ao desastre. Quantos daqueles que estão a ler este artigo são accionistas do BCP? E quantos continuam na acção por uma questão de crença? Quantos são accionistas porque fizeram as contas e concluíram que o preço era apetecível? Quantos, nesta altura, fazem aquela que deve ser a verdadeira questão: Se tivessem capital agora, seria no BCP que investiriam?

Vejo os investidores a virarem as suas atenções e críticas para a Administração. Esta Administração porque não sabe comunicar e as anteriores por erros de gestão. É verdade que o rumo descendente do império BCP nos últimos 14 anos foi responsabilidade, não apenas da conjuntura, mas também da gestão do Banco. Mas a responsabilidade de estar a perder dinheiro nas acções do BCP é sua, caro accionista. De mais ninguém.




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