Camilo Lourenço
A ilusão do "Não tenho culpa da crise"
26 Dezembro 2011, 23:30 por Camilo Lourenço | camilolourenco@gmail.com
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Agora que a austeridade começa a apertar é frequente ouvir dizer "Quem provocou a crise que a pague". A ideia é que os cidadãos que não beneficiaram da política (errada) dos últimos anos não têm de pagar a dura factura do ajustamento.
Esta tese é, à primeira vista, tentadora: por que é que uma empresa que construiu SCUT, por exemplo, não paga mais do que quem nunca teve negócios com o Estado? Ou noutra versão: "Por que hei-de pagar pelos erros do sistema financeiro, eu que nunca beneficiei das 'negociatas' dos bancos?". Este raciocínio está errado. Todos beneficiámos com a política (errada) dos últimos anos: quando o Estado gastou mais do que devia, o dinheiro entrou na economia e estimulou, ainda que de forma errada, a actividade económica; quando os bancos apregoavam "spreads zero" (financiando-se a curto prazo para emprestar a 20 anos...), muita gente recorreu ao crédito. Tudo isto contribuiu para que o país se sentisse (falsamente) rico. Porque mais dinheiro na economia faz-nos crer que somos ricos... mesmo que estejamos a viver com dinheiro emprestado. É como uma bebedeira, antes de chegar a ressaca. Por isso, embora a ideia de tirarmos o cavalinho da chuva seja atraente, não é aceitável.

Podemos dizer (os mais sensatos) "Mas eu bem alertei para o risco das festas de bar aberto: é pifo certo". Seja! Mas se eu também tiver bebido, embora moderadamente, ou se "apenas" tiver fornecido as bebidas para a festa (ou a farda da empresa de catering), também beneficiei com a situação. É bom não esquecer isso agora.



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