Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 11 de Outubro de 2016 às 00:01

A luta (perigosa) contra o politicamente correcto

Mas será a adopção do "politicamente correcto" uma restrição nefasta da liberdade, como se ouve também na direita portuguesa?

Nas tentativas para explicar os populismos de direita é frequente vermos o dedo apontado a um culpado: o politicamente correcto. Políticos em ascensão como Trump - ou Farage, ou Le Pen, ou Frauke Petry - exploram o espaço que foi roubado às pessoas pela esquerda do politicamente correcto. Estas pessoas, que vêem a sua vida económica ameaçada, sentem ao mesmo tempo que os seus valores e liberdade estão ameaçados. O politicamente correcto, que domina os jornais em que não confiam e a retórica dos políticos que desprezam, abafou-as. Um tipo como Trump devolve-lhes voz. Não é por acaso que denuncia quase todos os dias o politicamente correcto. Mas será a adopção do "politicamente correcto" uma restrição nefasta da liberdade, como se ouve também na direita portuguesa?

 

"Politicamente correcto" é um termo que começou por ser usado de forma literal pelos comunistas para se referirem à linha política conforme à sua, mas a conotação actual vem do outro pólo: os conservadores nos Estados Unidos. O termo começou a ser usado com mais força a partir dos anos 80/90 para atacar a agenda de mudança dos valores sociais - como a discriminação positiva de não brancos menos qualificados nas universidades, por exemplo - então liderada pela esquerda liberal.

 

A reacção dessa esquerda à cultura do passado tem sido fortíssima - e, em várias vertentes, exagerada. Um dos artigos mais lidos de sempre na revista The Atlantic ("The coddling of the american mind") descreve o clima agressivo de policiamento do discurso académico e dos alunos entre si. Este é o politicamente correcto que aperta - o que tira a palavra "negro" de clássicos da literatura; o que em vez de desafiar os cânones que excluem minorias tenta definir um espaço asfixiante de "superprotecção", da academia à literatura, passando pelo humor.

 

Este desejo de proteger é também o que leva, noutro tabuleiro, políticos e jornalistas europeus a menorizarem os receios da população em vários países face à imigração. O exemplo acabado, citado pelo Henrique Raposo no Expresso, é o de Selin Goren, uma activista alemã de esquerda que começou por mentir sobre a identidade dos homens (muçulmanos) que a violaram por não querer agravar a imagem deste grupo. Estas são formas perigosas de politicamente correcto, que extremam a intenção original de quem queria, afinal, dar poder a grupos marginalizados por uma cultura dominante de homens brancos.

 

É impossível, contudo, não notar que a denúncia constante de um conceito amplo e vazio de "politicamente correcto" é a arma preferida de homens que vêem a sua posição outrora hegemónica ameaçada por mulheres, de nacionais (brancos) que receiam a concorrência laboral de imigrantes (para trabalhos que não querem fazer), de pessoas que não aceitam a afirmação básica dos direitos dos gays - de todos que, no fundo, antes tinham o poder para definir livremente o que os outros eram e que, agora, vêem esse poder combatido. No discurso sexista e xenófobo de Trump isso é bem visível - como é nalgumas versões mais polidas, e perigosas, de uma parte não despicienda da direita conservadora em Portugal.

 

Esse politicamente correcto, o que respeita a forma como uma mulher, um homossexual ou um cidadão com uma deficiência quer ser tratado, é uma conquista valiosa - e, como todas as conquistas deste tipo, reversível. Seja na guerra para travar a ascensão do populismo sexista e xenófobo à Trump, ou na batalha de políticas e de ideias em Portugal, é importante saber do que se está a falar quando o politicamente correcto é atacado - só assim se preserva o que, a custo, já se ganhou.

Jornalista da revista SÁBADO

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