Manuel Castelo Branco
A mania das misérias
10 Maio 2012, 23:30 por Manuel Castelo Branco
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O TGV fazia parte de um projecto ferroviário essencial às exportações portuguesas, aos portos portugueses e ao turismo português. Da mania das grandezas passámos rapidamente à mania das misérias.
Andava eu a preparar-me para escrever sobre umas verdades que Ricardo Salgado teve a coragem de dizer, numa entrevista dada ao Expresso em 21 de Abril passado, quando a Europa e os mercados se sobressaltaram outra vez com a eleição de Holland, o advento da extrema-esquerda e da extrema-direita na Grécia, a renúncia do Governo holandês e com a previsão de que os Estados Unidos da América vão entrar em recessão a partir do segundo trimestre deste ano!

O resultado das eleições gregas são a prova de que quem delineou a estratégia de salvação da Grécia errou profundamente. Não há democracia possível com desemprego, pobreza e falta de futuro!

Certamente porque a austeridade, sem crescimento, apenas produz um ciclo vicioso e depressivo, a Comissão Europeia, pela voz do senhor Olli Rehn, atreveu-se a propor um plano de investimento em obra e infra-estruturas públicas. O saudoso Keynes está de regresso.

É aqui que estes factos entroncam na entrevista de Ricardo Salgado.

Afirmou ele: "não foram os portugueses que inventaram as PPP, há PPP pela Europa fora. Foram formas de o Estado fazer investimento público". Há "duas coisas que continuo a considerar estratégicas: uma é o TGV e a outra é o novo aeroporto de Lisboa".

O Estado português, através destas parcerias com empresas privadas, promoveu a realização de obra pública que não se limitou às auto-estradas: abrangeu também vários hospitais e centros de saúde, travessia ferroviária do Tejo e Metros de superfície, sistemas de segurança (SIRESP), mais de 30 concessões portuárias, inúmeras concessões no sector das águas, saneamento e resíduos e considerável investimento na captação de água para a produção de energia.

Como também afirmou Ricardo Salgado nessa entrevista, "certamente houve investimento excessivo", mas que Portugal se dotou de uma extraordinária rede de infra-estruturas que mudaram o País em pouco mais de 25 anos isso ninguém o pode negar. Como é sabido, outros países endividaram-se para projectos virtuais ou meramente financeiros.

Faltou o TGV e o Novo Aeroporto de Lisboa.

O TGV fazia parte de um projecto ferroviário essencial às exportações portuguesas, aos portos portugueses e ao turismo português. Como da mania das grandezas passámos rapidamente à mania das misérias, adiámos o projecto apesar de haver dinheiro para o concretizar.

Ao novo Aeroporto de Lisboa parece que também estará reservado igual destino se bem que a ANA, nos termos do actual contrato de concessão, esteja obrigada a construi-lo até 2017.

Pelo que ouvimos do Governo a ideia é continuar a remendar o actual aeroporto e desviar as "low cost" para um aeroporto periférico (Montijo?) onde não se poderá gastar "mais do que 50 milhões de euros" numa nova gare.

Qualquer especialista em aeroportos sabe que o actual Aeroporto de Lisboa tem que ser substituído por um novo desde, pelo menos, há 39 anos!!! O Governo de Marcelo Caetano já o sabia pois, em 1973, constituiu um grupo de trabalho para a construção do Aeroporto em Rio Frio presidido, pelo Prof António Sousa Franco que, enquanto seu aluno, tive o prazer de secretariar.

Qualquer especialista sabe que os "atributos" do aeroporto de Lisboa (estar no centro da cidade!) são só inconvenientes pois limitam a sua capacidade de expansão e operação: só tem uma pista, o taxiway é impróprio, senão mesmo perigoso, produz ruído constante em habitações, hospitais, salas de aula de 3 Universidades, etc.

Qualquer especialista sabe que os grandes hubs europeus (Heathrow, Frankfurt, Paris Orly ou CDG, Barajas) estão situados entre 30 a 60 km das cidades que servem, que essa situação foi condição "sine qua non" à sua expansão.

O actual Aeroporto de Lisboa é o 29º maior aeroporto da Europa. Só aqui ao lado os "nuestros hermanos", que certamente aplaudem a ideia de que o Aeroporto de Lisboa continue a ser um prédio grande, com uma garagem grande, implantado no meio de Lisboa, têm três aeroportos muito maiores: Barajas (50 milhões passageiros ano), Barcelona (30 milhões) e Maiorca (20 milhões).

Desde 1973, os Espanhóis, em Madrid, ampliaram os terminais 1, 2 e 3 de Barajas e construíram o terminal 4, que é o "aeroporto" da Ibéria, em Barcelona construíram um terminal praticamente novo para os jogos olímpicos e um novo megaterminal que inauguraram há dois anos (o aeroporto está agora preparado para movimentar tantos passageiros quanto Heathrow) e em Maiorca construíram um enorme aeroporto que no Verão tem mais movimentos que Barajas.

O nosso "aeroportozinho" de cidade, foi sendo objecto de pequenas, mas constantes obras de remodelação, movimenta 15 milhões e, com mais uma ou outra "obrazinha", poderá crescer mais um "bocadinho".

Portugal e a TAP têm condições geográficas e históricas para servir de grande plataforma de comunicação entre a Europa e outros continentes. Com o nosso aeroportozinho de cidade, a TAP já é a companhia aérea que mais lugares oferece para o Brasil. Ou seja, do nosso aeroportozinho, nas condições miseráveis de utilização que todos conhecemos (handling, casas de banho, zonas de descanso, informação, circulação, check-in, desembarque, recolha de bagagem) parte mais gente nos dez voos diários da TAP para o Brasil do que de Miami, Londres ou Paris!

Imagine-se a TAP a operar num verdadeiro aeroporto!

E se com este aeroportozinho entregarmos a TAP a uma companhia aérea que estimará o nosso aeroportozinho porque opera no 3º Hub da Europa, então dentro de pouco tempo, do Porto ou de Lisboa, só voaremos para qualquer lado numa companhia aérea estrangeira, numa "low cost" ou em avião privado.
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