Fernando  Sobral
Fernando Sobral 26 de Julho de 2012 às 23:30

A militante desertificação do País

Sem se criar uma economia para o interior, a desertificação do País continuará alegremente a correr à velocidade dos fogos. Não há emprego no interior, o Estado foge de lá, e só restam estradas com portagens para quem quiser sair de um mundo desconhecido por Lisboa.
Os portugueses sempre foram um povo de viagens. Desde cedo emigraram para fugir deste pequeno rectângulo em busca de um destino. Portugal constrói um império global, mas sempre desprezou o seu interior. O Estado português definiu-se sempre no litoral: como uma arquitectura burocrática que vivia das receitas das alfândegas e do comércio externo. O País não se vira para o interior, abandonado, que vivia quase independente de Lisboa. É por isso que os incêndios que todos os anos devastam o ia restando da mancha florestal do País e da economia que ainda potenciava alguma fixação de populações, apenas apressam essa fuga para o litoral. Construíram-se auto-estradas em nome da ligação do centro ao interior. Elas serviram para que os portugueses do interior fugissem mais rapidamente rumo às grandes cidades.

A política seguida pelos últimos governos, que em nome da eficiência e da poupança vêm retirando do interior os organismos do Estado (tribunais, centros de saúde, escolas) é o último golpe mortal no interior. Se agora já não há pessoas que ocupem as terras abandonadas do interior, um dia destes, em caso de incêndio, só restarão nesses locais os bombeiros. É isso que o Estado sempre fez ao país real. E que os últimos governos praticaram com prazer homicida. O Portugal mais antigo está a morrer perante o olhar impávido e parolo do Estado e da sociedade civil. A actividade agrícola foi genericamente destruída, incapaz de criar emprego e sustentabilidade económica. A cultura tradicional portuguesa está a sucumbir. Num livro espantoso, "Vida no Campo", o geógrafo Álvaro Domingues faz uma das análises mais devastadoras sobre o fim do país rural. E que o que existe é praticamente uma ficção. Como ele escreve: "os destroços do mundo rural estão por todo o lado". E dão vontade de chorar como as nossas elites deixaram que o vazio se criasse à volta das grandes cidades.

Face a isso o Estado, e o Governo, mostram-se incapazes de gerir este espaço vazio que vai crescendo. O que vai fazer o Ministério da Agricultura, no caso da zona de Tavira, onde zonas de alfarrobeira e amendoeira foram queimadas dramaticamente. Irá replantar árvores desse tipo para tentar manter a nossa mata mediterrânica, ou deixará tudo ao abandono, como é timbre em Portugal. Onde, exceptuando raros casos, o espaço rural público está ao abandono. O envelhecimento das populações do interior vai-se acentuando e contribuindo para o povoamento. Por isso bem pode Pedro Passos Coelho apelar à emigração. Com um Estado incapaz de olhar para o interior, ele apenas segue a linha de força das elites nacionais desde há séculos.

Sem se criar uma economia para o interior, a desertificação do País continuará alegremente a correr à velocidade dos fogos. Não há emprego no interior, o Estado foge de lá, e só restam estradas com portagens para quem quiser sair de um mundo desconhecido por Lisboa. A política do asfalto apenas fez com que os carros andassem mais velozmente. Mas desertificou o que restava de um Portugal que poderia ter uma das agriculturas mais saudáveis do mundo, capaz de criar um nicho de mercado de alta qualidade. Mas isso, pelos vistos, não faz parte da política deste Governo. Nem dos que o antecederam. Entretidos sobretudo em falar do mar e da ruralidade sem nada fazerem para que, qualquer um desses recursos naturais, seja utilizado em benefício do país e dos portugueses.

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comentários mais recentes
António Rocha Há 2 semanas

É uma realidade os diversos governos importaram-se mais em aplicar uma política de subsídios quase a custo zero, para entreter as populações do interior, políticas estas que não produzem riqueza nenhuma, em vez de qualificarem o incentivo para o investimento produtivo. Um bom exemplo são os subsídios no âmbito do PRODER para a reconstrução dos muros no Douro cujo retorno em termos de produção é rigorosamente Zero, mas que legitimamente os beneficiários aproveitam

abibliotecaviva.blogspot.com 29.07.2012

O sacrifício será ainda pior para quem construiu ou fez melhoramentos em habitações em zonas rurais visto que as avaliações do IMI em curso atingem valores patrimoniais a tributar, em alguns casos, superiores aos que existem na periferia das cidades.

Anónimo 28.07.2012

Portugal já é (todo) interior da UE.

Para contrariar a desertificação, EMIGREM Srs Aut 27.07.2012

Com elites de referência como RELVAS, CRISTAS & Engenheiro Domingueiro está garantida a inversão da tendência da desertificação.
Mas também as Forças Vivas dessas regiões, os Caciques, os Condes de Abranhos, pouca consistência e coragem possuem no seu poder de mobilização das populações por boas causas.
É tudo muito pequenino, são todos primos e matam-se por 1 palmo de terra!Querem é a sua Rotunda e o seu Centro Multimeios. Ninguém é pobre se não do juízo!
Caco, cacau, caca! Se quem "nos"governa não tem caco!?
Dimensão de propriedade, estudo de solos, estudos de viabilidade económico financeira de projectos, é tudo muito complicado.
ORLANDO Ribeiro,(1911-1997) geógrafo de projecção Mundial.
CRISTAS, a senhora da Lavoura, ouviu falar deste SR?
Mesmo genial, foi ver o Ministro SILVA PEREIRA, numa MANIF em Celorico de Basto com as elites autóctones a reinvidicarem
a permanência do Tribunal.
Silva Pereira, o Relvas de Sócrates que gastou todo o cacau que o País tinha e não tinha para levar as auto -estradas desertas até Celorico de Basto!

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