João Costa Pinto
João Costa Pinto 10 de Outubro de 2016 às 21:15

A mutação do negócio bancário - (LXXXI)

Europa do euro parece sobretudo preocupada com os excessos que antecederam a crise, subavaliando os riscos do impacto da continuada repressão financeira sobre o crescimento.

1. Ao longo de décadas o negócio bancário explodiu impulsionado pela globalização - em particular, depois do colapso do quadro regulatório de Bretton Woods, adoptado em 1944. O impacto global desta evolução nos mercados europeus foi distinto do verificado nos países anglo-saxónicos. Nestes, foi absorvida pelos mercados de capitais e pelos bancos de investimento. Na Europa, foi-o sobretudo pelos bancos comerciais que beneficiaram de uma licença universal. Quando sobreveio a crise de 2008, estes respondiam por mais de 70% do financiamento da Zona Euro, contra apenas cerca de 30% nos EUA. O financiamento das economias do euro permanece assim dependente dos mercados bancários. Apesar disso, a Europa do euro parece sobretudo preocupada com os excessos que antecederam a crise, subavaliando os riscos do impacto da continuada repressão financeira sobre o crescimento. Como resultado, os bancos estão a absorver pressões que estão a ameaçar destruir o seu modelo de negócios e a afectar fortemente a sua rentabilidade.

 

2. Para o compreender, basta ter presente os fundamentos do modelo do negócio bancário: como elemento central, a captação de passivo de curto prazo - sobretudo depósitos - e a oferta de crédito a médio/longo prazos. Esta transformação temporal permite-lhes beneficiar da diferença entre as taxas de juro de curto e as de médio/longo prazos, ao longo da chamada "curva de rendimentos"; depois, a acumulação de "risco próprio" nos seus balanços, implícito nas carteiras de activos - sobretudo créditos. Risco suportado pelo capital aportado pelos accionistas; por fim, a capacidade dos bancos para "alavancar" os seus capitais e expandir os balanços a partir de dívida - depósitos e dívida titulada - o que lhes permite criar liquidez. Fundamentos que a resposta da Europa do euro à crise veio abalar, provocando a erosão rápida do seu modelo de negócio. A política de taxas de juro historicamente baixas do BCE "achatou" a "curva de rendimentos", com um forte impacto negativo sobre a margem financeira. A adopção do mecanismo de "bail-in"(*), politicamente justificado pela protecção dos contribuintes, alargou na prática aos credores - incluindo depositantes - a responsabilidade pela cobertura do risco acumulado nos balanços. Trata-se, na verdade, de uma alteração radical do modelo do negócio bancário, com implicações que apenas começam a ser visíveis. Mesmo admitindo que a política de taxas de juro baixas do BCE é temporária, estas pressões vão continuar a forçar mudanças profundas nos bancos, com reflexos nos mercados bancários. Para os reguladores/supervisores europeus, a resposta dos bancos a estas dificuldades passa por: uma redução da concorrência através da concentração; uma procura de novas fontes de receita; um redesenho das "operações", em torno de novas soluções tecnológicas. Propostas que, na sua aparente racionalidade, se apresentam com implicações muito complexas, num contexto legal e regulamentar que impede governos democráticos de usar capitais públicos para preservar a estabilidade financeira. Na verdade, prolongam e tornam mais incerto o período de transição e complicam a situação nos mercados bancários periféricos. Mas, além disso, a Europa do euro continua a subavaliar a importância dos mercados de capitais. Temas para outro dia.

 

(*) Resgate interno.

 

Economista

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mais votado Anónimo Há 4 semanas


PS . BE . PCP são uns PHILHOS DE PHU TA que xupam o sangue ao POVO...

para dar mais dinheiro e privilégios aos FP & CGA.


comentários mais recentes
surpreso Há 3 semanas

A actividade pelo digital e online,agravada pela estúpida politica de juros do BCE,vai alterar toda a prática bancária europeia,entre mortos e feridos

Anónimo Há 4 semanas


PS . BE . PCP são uns PHILHOS DE PHU TA que xupam o sangue ao POVO...

para dar mais dinheiro e privilégios aos FP & CGA.