Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 02 de Outubro de 2016 às 19:30

A nossa divina comédia 

Pedro Passos Coelho errou na previsão. O diabo não chegou em setembro, nem deverá chegar este outono.

Num país com um PIB tão anémico, endividado, envelhecido, com uma máquina pesada do Estado, é elevada a possibilidade do regresso de Mefisto, mas o líder da oposição cometeu um erro e não aprendeu nada com os mestres da profecia: nem Nostradamus, nem o Bandarra de Trancoso se comprometeram com datas precisas, evitando o risco de serem confrontados com a realidade a curto prazo.

 

A geringonça sobreviveu a este outono e vai sobreviver nas negociações do Orçamento do Estado.  A generalidade das sondagens mantém os partidos que a suportam com clara maioria absoluta. E a vantagem é tanta que António Costa até poderia sonhar com uma aliança maioritária a dois, só com o Bloco, ou apenas com o PCP.

 

E nas contas públicas, os dados do défice até dão um balão de oxigénio, o que é uma vitória para o atual Governo. Costuma dizer-se que o diabo está nos detalhes, mas os pormenores não têm o impacto da imagem geral. Já há sinais claros de que o Governo vai fazer tudo para sair de 2016 com  o défice controlado. Empurra com a barriga para o próximo ano os compromissos financeiros inadiáveis deste ano e  congela  o investimento público. Exemplo desta política é o atraso do Ministério das Finanças na disponibilização de uma verba de 4,1 milhões de euros para o Ministério da Defesa, o que compromete a abertura do novo ano letivo das academias militares.

 

Há um brutal aumento de impostos, mas nos combustíveis e no tabaco. Mas os impostos indiretos são mais anestesiantes, quando se paga o gasóleo caro, culpa-se o petróleo, apesar de mais de metade do preço reverter para o Fisco. E quem fuma já sabe que o vício não é barato. E o Governo ainda se dá ao luxo de fazer a pedagogia politicamente correta de proteger o ambiente com mais impostos sobre os produtos mais poluentes.

 

O imposto mais relevante para as pessoas é o IRS, com reflexos diretos no orçamento familiar. Este ano muita gente recuperou salário e pensões e no acerto de contas as devoluções bateram um impressionante recorde. Tudo indica que no Orçamento do Estado para 2017 a receita do "cocktail" fiscal seja mais do mesmo. Menos pressão no IRS, com abolição da sobretaxa, e mexidas nas deduções, que favorecem a maioria das famílias, compensadas por acréscimos nos tais impostos anestesiantes. É inevitável o agravamento fiscal, mas este Governo está a escolher o caminho politicamente mais hábil e com alguns truques, devolvendo rendimento nos salários e pensões, através de um alívio no IRS, o que até pode gerar a ideia de baixar a pressão. Quanto ao barulho provocado pelas palavras de Mariana Mortágua, a polémica até ajudou António Costa, que vem colocar o patamar de um milhão de euros para a tributação, excluindo as casas de habitação das famílias, o que limita o universo das pessoas atingidas e dá uma bandeira à esquerda.

 

Porém, Portugal vive um purgatório de baixo crescimento económico, com todas as penas que isso acarreta. Quem mais sofre é o exército de desempregados, uma taxa que persiste em valores preocupantes, sendo particularmente assustadora a taxa de desempregados de longa duração e o desemprego entre os mais jovens.

 

Não se vê o diabo, mas há sinais que mostram a entrada do inferno descrita por Dante na magistral "Divina Comédia". A inscrição daquela porta, "Ó, vós que entrais, abandonai toda a esperança", diz muito sobre os dias de hoje.

 

Director-adjunto do Correio da Manhã

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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mais votado Hélio Marta 02.10.2016

Eu só ouço falar em aumento de impostos e cortes de despesa. Hospitais, metropolitano, etc.

comentários mais recentes
5640533 04.10.2016

O que está a fazer aqui gente do Correio da Manhã? Vem aí também alguém da MARIA?

Fernando Manuel 03.10.2016

Coitado há 40 anis que não acerta uma.

Manuel Nelson Bouças 03.10.2016

Ah mas vai chegar... Mas quando isso acontecer a culpa vai ser do anterior governo e da conjuntura internacional. E o povo, inepto, vai acreditar...??????

Hélio Marta 02.10.2016

Eu só ouço falar em aumento de impostos e cortes de despesa. Hospitais, metropolitano, etc.

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