Camilo Lourenço
A obsessão pelo canudo, "saloice" portuguesa
04 Julho 2012, 23:30 por Camilo Lourenço | camilolourenco@gmail.com
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Nos anos 90, entrevistei John Major a poucas semanas de passar do n.º 11 para o n.º 10 de Downing Street. No final perguntei se era verdade que tinha sido "college drop-out".
Nos anos 90, entrevistei John Major a poucas semanas de passar do n.º 11 para o n.º 10 de Downing Street. No final perguntei se era verdade que tinha sido "college drop-out". Disse-me que sim, mas que não se orgulhava disso. E que encorajava os jovens a completarem a formação académica. Explicou-me, quando perguntei porque não tinha voltado à faculdade, que tinha optado pela vida empresarial e que a política não lhe deixava muito tempo.

Fiquei impressionado. Ali estava um político que teria podido licenciar-se (legalmente, com "créditos" ou outra coisa qualquer), mas escolhera a experiência empresarial para o guiar na política. Lembro-me sempre deste exemplo quando surgem "casos" com os títulos académicos de políticos (Sócrates, Relvas…). Porque não percebo a "fossanga dos canudos".

Uma licenciatura não vale nada se não estiverem reunidas duas condições: ter utilidade (empregabilidade) e quem a "tira" saber usar a cabeça. De que vale a um aluno saber papaguear as leis da oferta e da procura se não perceber que isso, de per si, não vale nada? E que, para ser útil à sociedade, tem de saber utilizar as ferramentas de que dispõe para solucionar os problemas que lhe surgem na vida profissional?

Esta procura obsessiva do título académico é um bom retrato da sociedade portuguesa (um político não é mais competente por ser licenciado). Se ela ficasse restrita às quatro paredes da casa de cada um, nenhum mal viria (a não ser o desemprego). O pior é quando essas obsessões chegam à vida política, como aconteceu com Sócrates e Relvas (quantos mais casos haverá…?). Passam para a sociedade a ideia de que, quando se é político, tudo se consegue.



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