Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 03 de Outubro de 2016 às 09:41

A operação de cosmética do BCP

Este é um passo corajoso e lúcido desta administração, mas apenas torna o embrulho mais bonito.
O BCP anunciou uma fusão de acções em que cada accionista trocará 75 acções antigas por uma acção nova. Para os menos conhecedores destas operações, os accionistas não ficam prejudicados com esta troca. Uma vez que é uma operação meramente contabilística, o valor da empresa não se altera, pelo que a cotação ajustará a esta divisão de acções, multiplicando o seu valor, fazendo com que o impacto no accionista seja nulo.

Acredito que esta operação é um passo em frente dado pelo BCP para tentar ganhar alguma credibilidade junto dos investidores estrangeiros. Uma acção que cota abaixo de 2 cêntimos foge, por completo, dos radares institucionais. Naturalmente, não resolve os problemas do banco e o que é fundamental é conseguir solucionar os problemas de capital, voltar aos bons resultados e pagar os Cocos, mas é um passo acertado para a credibilização aos olhos estrangeiros.

Alguns investidores têm receio de que esta operação abra a porta a mais quedas. Temem que, com a subida das cotações, alguns investidores percepcionem que a acção está cara e fujam. Seria uma atitude irracional dos investidores, mas quantas vezes os mercados no curto prazo não são guiados por estas percepções?

Se o BCP tivesse 1.000 vezes menos acções em circulação e valesse cerca de 15 euros, será que tantos investidores seriam accionistas do banco e se manteriam agarrados às suas acções, usando argumentos como "isto não pode ir até zero"? Creio que não. Até porque, seja qual for o valor a que uma acção esteja cotada, ela pode sempre perder até 100%.

Há uma irresistível atracção dos pequenos investidores pelas acções que estão a cotar a um valor muito baixo, mesmo que a esmagadora maioria desses investidores não faça ideia de quantas acções estão em circulação ou da capitalização bolsista da empresa. É o mesmo que dizer que há uma irremediável atracção dos pequenos investidores pelo abismo e, quanto mais as acções caem para valores muito baixos, mais começam a salivar por as ter na sua posse.

É evidente que se o BCP continuar a cair depois desta operação, muitos se apressarão a dizer que foi um erro, esquecendo-se de que a cotação do banco cai há muitos anos. Este é um passo corajoso e lúcido desta administração, mas apenas torna o embrulho mais bonito. Para que a prenda satisfaça é preciso resolver todos os outros problemas. E, para isso, é preciso voltar a ganhar dinheiro a sério. Com ou sem operações de cosmética.


Nem Ulisses Pereira, nem os seus clientes, nem a DIF Brokers detêm posição sobre os activos analisados. Deve ser consultado o disclaimer integral aqui


Analista Dif Brokers
ulisses.pereira@difbroker.com