Em Portugal usa-se e abusa-se da "ideologia". Fala-se de Saúde e lá está ela. Fala-se de Educação e em privatizações "et voilà". Fala-se em cortar despesa e logo aparece alguém a gritar "neoliberalismo".
O último debate sobre o "estado da nação" foi o cúmulo desta obsessão: o momento certo para o Parlamento discutir os verdadeiros desafios do país transformou-se numa discussão... ideológica.
Quando pergunto a políticos à esquerda e à direita o porquê desta obsessão, a resposta não é muito diferente: não se governa um país sem "fazer política" e isso implica discutir opções ideológicas.
Pessoalmente acho isto desculpa de mau pagador. Se houve coisa onde Portugal se excedeu nos últimos 37 anos foi a discutir "ideologia". E se isso fazia sentido nos anos pós-Revolução, agora não serve para nada: veja-se
Mário Soares, que não perde uma oportunidade para proclamar a superioridade da ideologia sobre o pragmatismo dos números, ou a indignação bacoca de António Arnaut quando se mexe no
SNS.
Perante tanta insistência na "ideologia", suspeito que o problema é outro: os políticos usam e abusam dela para desviar a atenção dos verdadeiros problemas. Como discutir esses problemas é impopular, e faz perder votos, refugiam-se na "ideologia".
A privatização da TAP é um exemplo: Portugal não tem investidores com dinheiro para salvar a empresa (350 milhões de capitais negativos); o Estado também não a pode recapitalizar (mesmo que a União deixasse, não tinha dinheiro). E quando é preciso recorrer a capital externo, a conversa envereda pelo "interesse público" e "soberania". Dá vontade de perguntar aos políticos se o povo come "ideologia".
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