Robert Skidelsky
Robert Skidelsky 14 de janeiro de 2018 às 14:00

Acelerar a máquina

Vale a pena ter um mundo no qual estamos condenados a competir com as máquinas para produzir quantidades ainda maiores de bens de consumo? E se não tivermos a esperança de controlar este mundo, qual é o valor que tem sermos humanos?

Afastar a ansiedade em relação aos robôs tornou-se a principal preocupação dos apologéticos dos negócios. A visão do senso comum – e longe de ser tonta – é que quantos mais empregos forem automatizados, menos vão existir para os humanos desempenharem. O exemplo clássico é o carro autónomo. Se os carros pode ser conduzidos autonomamente, o que é que vai acontecer aos motoristas, aos motoristas de táxis e por aí em diante?

A teoria económica diz-nos que as nossas preocupações são infundadas. Se os funcionários trabalharem em conjunto com as máquinas, os trabalhadores vão aumentar a sua produção por hora de trabalho. Depois têm uma escolha invejável: trabalhar menos pelo mesmo salário anterior ou trabalhar o mesmo número de horas pelo mesmo salário. E à medida que os custos dos bens existentes cai, os consumidores vão ter mais dinheiro para gastar nos mesmos bens ou em bens diferentes. De qualquer forma, não há motivos para esperar uma perda líquida dos empregos humanos – ou nada menos do que melhorias continuas nos padrões de vida.

A história sugere outro tanto. Durante os últimos cerca de 200 anos, a produtividade tem estado a crescer constantemente, especialmente no Ocidente. As pessoas que vivem no Ocidente escolheram tanto o lazer como os elevados rendimentos. As horas de trabalho nos países ricos foram reduzidas para metade desde 1870, enquanto os rendimentos reais per capita quintuplicaram.

Quantos empregos de humanos estão verdadeiramente em "risco" com os robôs? De acordo com um relatório inestimável do McKinsey Global Institute (MGI), cerca de 50% do tempo gasto em actividades laborais, realizadas por humanos, na economia mundial, teoricamente, pode ser automatizado, embora as tendências actuais sugiram que serão, no máximo, 30% dessas actividades automatizadas em 2030, dependendo sobretudo da velocidade de adopção das novas tecnologias. As previsões médias deste relatório são: a Alemanha 24% das actividades, o Japão 26%, os Estados Unidos 23%, a China 16%, a Índia 9% e o México 13%. Em 2030, as estimativas do MGI apontam que entre 400 e 800 milhões de indivíduos vão precisar de novas ocupações, algumas das quais ainda não existem.

Esta taxa de transferência do trabalho não está muito longe do registado em períodos anteriores. Um dos motivos pelo qual a automatização assusta tanto hoje em dia é que o futuro é mais incognoscível agora do que no passado: falta-nos os dados para as previsões alarmistas. A razão mais profunda é que as perspectivas actuais para a automatização anunciam um futuro no qual as máquinas podem plausivelmente substituir os humanos em muitas esferas do trabalho onde antes era pensado que apenas nós podíamos desempenhar esse trabalho.

Os economistas sempre acreditaram que as anteriores ondas de destruição do emprego levariam a um equilíbrio entre a oferta e a procura no mercado laboral num nível elevado tanto do emprego como dos rendimentos. Mas se os robôs conseguirem de facto substituir, não apenas afastar, os humanos, é difícil ver um ponto de equilíbrio até que a raça humana se torne redundante.

O relatório MGI rejeita uma conclusão tão cinzenta. A longo prazo, a economia pode ajustar e dar um trabalho satisfatório para todos os que o queiram. "Para a sociedade como um todo, as máquinas podem desempenhar os trabalhos rotineiros, ou sujos, e podem permitir a utilização do talento intrinsecamente humano e permitir desfrutar de mais tempos de lazer".

É isto basicamente que se tem com a economia empresarial. Mas há algumas lacunas sérias neste argumento.

O primeiro motivo de preocupação está relacionado com a extensão e com o âmbito da transição de uma economia humana para uma automatizada. Neste caso, o passado pode ser menos confiável para dar orientação do que aquilo que pensamos, porque o ritmo da mudança tecnológica mais lento significou que a substituição dos empregos acompanhou a deslocação dos trabalhos. Hoje, a deslocalização – e por conseguinte a disrupção – decorre a um ritmo muito mais rápido porque a tecnologia está a ser inventada e difundida de uma forma muito mais rápida. "Nas economias avançadas, todos os cenários", escreve a McKinsey "resultam no pleno emprego em 2030 mas a transição podem incluir períodos de um desemprego mais elevado e ajustamentos [em baixa] dos salários", dependendo da velocidade de adaptação.

Isto representa um dilema para os políticos. Quanto mais rápido as novas tecnologias forem introduzidas, mais empregos vai retirar, mas mais rapidamente os prometidos benefícios se vão concretizar. O relatório MGI rejeita as tentativas para limitar o âmbito e o ritmo da automatização, o que pode "limitar os contributos que estas tecnologias dão para o dinamismo empresarial e para o crescimento económico".

Dadas estas prioridades, a principal resposta política é quase automática: um investimento elevado num "Plano Marshall em escala", aplicado na educação e na formação dos trabalhadores para assegurar que os humanos têm conhecimentos em competências críticas que lhes permitam lidar com a transição.

O relatório também reconhece a necessidade de assegurar que "os salários estão ligados a uma produtividade crescente para que a prosperidade seja partilhada com todos". Mas isto ignora o facto de que os ganhos recentes na produtividade têm sido benéficos sobretudo para uma pequena minoria. Em consequência, é dada pouca atenção à forma como a escolha entre trabalho e lazer, prometida pelos economistas, pode ser eficaz para todos.

Por fim, o relatório pressupõe que a automatização não é apenas desejável mas irreversível. Quando tivermos aprendido a fazer algo de forma mais eficaz (com custos mais baixos), não há possibilidade de voltar atrás e fazê-lo de forma menos eficiente. A única questão é como é que os humanos podem se podem adaptar melhor às exigências de um padrão de eficiência mais elevado.

Em termos filosóficos, isto é confuso porque mistura fazer algo de forma mais eficiente com fazê-lo melhor. Mistura o argumento técnico com o moral. É possível e necessário perguntar em relação ao mundo prometido pelos apóstolos da tecnologia: é bom?

Vale a pena ter um mundo no qual estamos condenados a competir com as máquinas para produzir quantidades ainda maiores de bens de consumo? E se não tivermos a esperança de controlar este mundo, qual é o valor que tem sermos humanos? Estas questões podem estar fora da missão da McKinsey mas não devem estar fora dos limites da discussão pública.

 

Robert Skidelsky, membro da Câmara dos Lordes britânica, é professor emérito de Economia Política na Universidade de Warwick.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

pub