Adair Turner
Adair Turner 07 de dezembro de 2016 às 20:00

Afastar-se da liderança dos Estados Unidos

Seria errado ignorar os perigos da presidência de Trump, e a incerteza sobre o que fará já tornou o mundo num lugar mais arriscado.

A eleição de Donald Trump foi recebida em todo o mundo com perplexidade e medo justificáveis. A sua vitória – depois de uma campanha eleitoral desonesta e viciosa - destruiu a marca da democracia americana. Mas, ainda que Trump seja impulsivo e ocasionalmente vingativo - uma mistura potencialmente fatal num mundo já frágil – a sua eleição deve ser um estímulo para desafiar as ideias fracassadas e ir além da confiança excessiva na inevitavelmente imperfeita liderança global dos Estados Unidos.

 

Em muitas áreas, o que Trump vai mesmo fazer é incognoscível: é aí que está o risco. Mas no caso da política económica, uma coisa é certa: a política orçamental será afrouxada. Os estímulos serão, provavelmente, ineficientes e regressivos: grandes cortes de impostos para os ricos vão acentuar a desigualdade que ajudou a alimentar o sucesso de Trump. E os seus planos de gastos em infraestrutura - baseados em créditos fiscais de investimento - podem ter apenas um impacto limitado.

 

Mas a direcção da mudança de política - de estímulos monetários para estímulos orçamentais - faz sentido. Em todas as economias desenvolvidas, o mix de políticas prevalecente nos últimos seis anos – restrições orçamentais e política monetária expansionista - resultou num crescimento medíocre do rendimento, mas em grandes aumentos de riqueza para os já ricos. Se os estímulos orçamentais de Trump conduzirem a uma reformulação de políticas em algum lado, já será um benefício.

 

No que respeita à política comercial, os riscos são provavelmente menores do que parecem à primeira vista. Se Trump mantiver as suas promessas de rever o Acordo de Livre Comércio da América do Norte e impor tarifas em muitas importações chinesas, poderá levar a economia mundial de um crescimento desigual para uma depressão total. Mas uma versão pragmática de "A América em primeiro lugar", focada na reeleição em 2020, deverá significar algumas medidas em grande parte simbólicas (como as tarifas antidumping sobre algumas importações chinesas de aço) e o abandono de novas iniciativas de liberalização comercial como a Parceria Transpacífico e a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento.

 

Se for essa a extensão do proteccionismo de Trump, qualquer prejuízo resultante para a economia global será ligeiro. Ainda que a liberalização do comércio entre 1950 e 2000 tenha ajudado a impulsionar o crescimento global, os benefícios marginais de uma maior liberalização são pequenos. De facto, o foco da política deveria ter mudado, há pelo menos uma década, para as consequências distributivas adversas que podem resultar da globalização. Se a eleição de Trump estimular uma abordagem mais ponderada para a liberalização do comércio, poderá trazer benefícios também nessa área.

 

Assim, o impacto da eleição de Trump sobre a economia dos EUA e sobre a economia global pode ser ligeiramente positivo, pelo menos no curto prazo. O potencial impacto da sua administração na política global e no ambiente é que deve nos preocupar mais. Outros países vão ter que garantir a liderança que os Estados Unidos não terão - e enfrentar os EUA quando for necessário.

 

Poucos comentários da campanha de Trump podem ser descritos como perspicazes e justos, mas ele estava certo quando sugeriu que a Europa não pode confiar na América para defendê-la se continuar indisponível para fazer uma contribuição justa para a capacidade militar. A América gasta cerca de 4% do seu PIB em defesa e representa cerca de 70% do total das despesas militares de todos os membros da NATO. A maioria dos países europeus não cumpre o objectivo da Aliança de 2% do PIB para gastos com defesa, mas ainda espera que os Estados Unidos ofereçam garantias de segurança contra o aventureirismo russo, por exemplo. Um compromisso credível do Reino Unido, França e Alemanha de aumentar os gastos com a defesa para 3% do PIB iria pelo menos reduzir o desequilíbrio perigoso no núcleo da NATO.

 

A promessa de Trump de destruir o acordo com o Irão é, pelo contrário, uma ameaça irresponsável e perigosa para a paz mundial, que só fortaleceria os radicais iranianos. Mas este acordo não foi apenas entre os EUA e o Irão; foi negociado por seis grandes potências e aprovado pelas Nações Unidas. Essas potências deveriam deixar claro que não vão voltar a impor sanções e que qualquer tentativa dos EUA de impor a sua vontade através de medidas extraterritoriais - usando o acesso a sistemas de compensação do dólar como uma ferramenta de política externa – teria como resposta uma acção coordenada. Para o Reino Unido, em particular, isso pode exigir disponibilidade para chocar de frente com a política externa dos EUA de uma forma que alguns devotos da nossa "relação especial" acharão desconfortável.

 

Quanto às alterações climáticas, a eleição de um homem que alega acreditar que o aquecimento global é um embuste chinês criado para prejudicar negócios americanos é claramente uma má notícia. Mas o ímpeto global para combater as alterações climáticas pode e deve ser mantido. A queda do preço das energias renováveis vai impulsionar o investimento das empresas em baixas emissões de carbono, independentemente do que os EUA façam. Além disso, o compromisso cada vez mais forte da China de limitar e reduzir as suas emissões é mais importante do que qualquer retrocesso norte-americano, e a capacidade da Alemanha para combinar o sucesso impressionante das exportações com o rápido crescimento das energias renováveis comprova o absurdo da afirmação de que a construção de uma economia de baixo carbono ameaça a competitividade.

 

Também nos EUA, políticas em estados individuais como a Califórnia impulsionarão o progresso tecnológico, independentemente da abordagem do governo federal. E o crescimento constante de evidências incontestáveis de que o aquecimento global é real pode alinhar lentamente o equilíbrio da opinião política dos EUA, e talvez até mesmo da opinião de Trump, com a clara maioria dos americanos que acredita que as alterações climáticas são um grande problema. O resto do mundo deve redobrar o seu compromisso com o acordo climático de Paris de 2015: a política climática global não precisa depender do que um presidente dos EUA diz que pensa.

 

Seria errado ignorar os perigos da presidência de Trump, e a incerteza sobre o que fará já tornou o mundo num lugar mais arriscado. Para os líderes políticos de todo o mundo, a primeira resposta deve ser construir uma ordem mundial que seja menos dependente da liderança dos EUA e menos vulnerável aos caprichos das eleições americanas.

 

Adair Turner foi presidente da Autoridade dos Serviços Financeiros do Reino Unido e é actualmente "chairman" do Institute for New Economic Thinking. O seu mais recente livro intitula-se "Between Debt and the Devil".

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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mais votado Anónimo Há 1 semana


FIDEL - O HERÓI DA ESQUERDA NÃO PASSA DE UM RELES CRIMINOSO.

- Mandou matar mais de 9000 cubanos (que se saiba).

- Roubou mais de 900 milhões de dólares ao povo cubano, para a sua fortuna pessoal e da família (que se saiba).

comentários mais recentes
Tom 23.12.2016

(A eleição de Donald Trump foi recebida em todo o mundo com perplexidade) foi mesmo...?

Anónimo Há 1 semana


FIDEL - O HERÓI DA ESQUERDA NÃO PASSA DE UM RELES CRIMINOSO.

- Mandou matar mais de 9000 cubanos (que se saiba).

- Roubou mais de 900 milhões de dólares ao povo cubano, para a sua fortuna pessoal e da família (que se saiba).

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