Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 08 de maio de 2017 às 20:42

Afinal ganham-se eleições defendendo a globalização

O novo Presidente francês assume, sem reservas retóricas ou mentais, a sua pertença ao projeto europeu, à economia de mercado, à globalização, às liberdades de circulação.

Não é o único a acreditar nessas referências, que fazem parte do nosso quotidiano, mas é dos únicos a assumir-se sem reservas como representante do mundo liberal e globalizado.

 

Basta olhar em volta, aqui ou lá fora, para os chamados partidos europeístas ou para os partidos do arco conservador e liberal, para ver que nenhum consegue fazer um discurso sem reservas, aspiracional, sobre os seus valores. São de uma timidez incompatível com a política: ninguém é mobilizado para um projeto que não é defendido abertamente, apaixonadamente, pelos seus representantes.

 

Isto não significa, não tem de significar, que está tudo bem com este mundo globalizado. Não está. Mas chegámos a um ponto, pela pressão mediática e pela velocidade das redes sociais, em que só se admite espaço para a crítica, única posição legítima se não se quiser ser rotulado como representante do sector privilegiado e estabelecido. Há, por isso, um convite à intervenção política pela negativa: está-se contra algo, para derrotar algo, para denunciar algo.

 

Diz-se que Macron constrói parte do seu discurso a partir da posição de "outsider". Isso é em parte verdade relativamente ao sistema partidário, mas não relativamente ao chamado, de forma pejorativa, sistema.

 

Macron olha para o impasse que os atuais partidos criaram e vê o óbvio: a desertificação do centro moderado, a ausência de quem afirme positivamente o modelo europeu, com os socialistas colonizados pela extrema-esquerda, mais preocupados em mudar o mundo capitalista e europeu do que em apresentar um reformismo sensato, e com os conservadores aterrados com a extrema-direita, mais preocupados em fazer um discurso capaz de atrair os votantes de Le Pen do que em afirmar o seu conservadorismo. 

 

Nesse sentido, Macron vem de fora e quer corrigir esse desvio fatal, essa atração pelo abismo, pelo radicalismo. E quer provar que não temos de combater os inimigos da liberdade no seu próprio tabuleiro, arriscando a sua linguagem, sujeitando-se aos termos do seu debate.

 

Mas em lado algum Macron pretende afirmar-se alheio ao sistema, ser antissistema. Não poderia, desde logo, mas nem é tanto isso. É que a sua pertença ao sistema faz parte do seu discurso. Ele é o representante do modelo que temos, com todos os seus defeitos, e foi essa a sua lição: podemos defender apaixonadamente a economia de mercado, a Europa, as liberdades, e, ainda assim, ganhar eleições.

 

Le Pen achou que este era o seu lado frágil, esta adesão pronta ao sistema, e explorou essa circunstância nos debates, esperando, como aconteceu com os seus adversários, que este se enredasse em sucessões de mas: sou a favor da Europa e da economia de mercado, mas... Sucede que não houve mas, Macron surpreendeu-a pela sua disponibilidade para assumir a pertença ao sistema e desferiu-lhe um golpe certeiro: só quem não acredita em França acha que é preciso fechar as fronteiras e eliminar concorrência para França poder vencer. 

 

Quer isto dizer que todos os seus votos representam uma adesão a estes valores? Claro que não. Mas quem chegou à segunda volta foi ele, e não nenhum dos outros, que eram quem mais obrigação tinha de lá chegar. Além de que, convenhamos, este não será o primeiro eleito a contar com votos que não seriam seus noutras circunstâncias.

 

Isto não nos diz nada sobre o futuro, nem vejo em Macron um novo Messias. Mas diz-nos muito sobre a forma como continuamos a olhar para a realidade com as lentes que nos colocam à frente. Já nos tínhamos esquecido de que era possível ganhar eleições assim.

 

Advogado

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

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mais votado Anónimo Há 1 semana

Adolfo, há comentadores que têm duas palas nos olhos e só vêem de dentro das fronteiras portuguesas para dentro. Os progressos e transformações constantes que tornam outras economias e sociedades desenvolvidas em economias e sociedades desenvolvidas mais ricas, justas e sustentáveis do que as nossas passam-lhes completamente ao lado.

comentários mais recentes
Rogerio Fernandes Há 6 dias

Excelente artigo de opinião, é claro que cada um pode escolher o modelo de Sociedade em que quer viver, o que não deixa de ser Irânico, curioso e até Satirizaste e ver aqueles que durante vários anos defenderam uma Retórica anti-Globalização agora são quem vota e apoia estes candidatos .

Anónimo Há 1 semana

No meu imaginário as eleições francesas foram um processo conspirativo orquestrado com violência contra Macron,Fillon e Le Pen.O quarto poder atirou-se ás alegadas irregularidades de Fillon,Le Pen e comportamento de Macron.Deste ataque sobreviveu inesperadamente Macron como única alternativa viáve

Anónimo Há 1 semana

Amélia, os salários ou o custo do trabalho em Portugal, na indústria de lacticínios e noutras, são mais reduzidos do que em França e outras economias mais ricas e desenvolvidas do que a portuguesa, mas o que se passa é que as empresas gozam de economias de escala que as empresas portuguesas só atingiriam se se internacionalizassem. E o que é facto é que muito raramente isso acontece porque sindicatos e esquerda não deixam que se reúnam as condições para que tal aconteça. Por outro lado, e não menos importante, há que salientar que o sector empresarial dessas economias mais ricas e desenvolvidas tem uma muito maior alocação de capital com grande incorporação de tecnologia de ponta, económica e eficiente, que poupa enormemente em factor trabalho. Uma coisa é ter 200 assalariados a ganhar 1000 outra é ter 50 a ganhar 2000 para produzir o dobro do que se consegue produzir empregando os primeiros.

Anónimo Há 1 semana

Adolfo, há comentadores que têm duas palas nos olhos e só vêem de dentro das fronteiras portuguesas para dentro. Os progressos e transformações constantes que tornam outras economias e sociedades desenvolvidas em economias e sociedades desenvolvidas mais ricas, justas e sustentáveis do que as nossas passam-lhes completamente ao lado.

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