Avelino de Jesus
Avelino de Jesus 21 de agosto de 2017 às 19:25

Ainda no mau caminho: o descalabro da poupança

O INE confirmou que no 1º semestre de 2017, o PIB português cresceu 2,8%. Se respigamos a imprensa o que vemos sobre o assunto? O tom geral é esmagador: estamos no bom caminho e ainda podemos melhorar, com mais do mesmo, através de mais despesa pública.

Mas se olhamos para os dados dos factores fundamentais do crescimento a conclusão é outra. Os dados do PIB e do emprego - positivos em termos absolutos e isoladamente considerados - exprimem flutuações conjunturais resultante de melhorias externas e dos apoios monetários do BCE.

 

Por contraste com aqueles dados positivos considerem-se os 4 dados fundamentais: a produtividade em queda, a dívida pública em alta, o volume do stock de capital em baixa. Mas, sobretudo, deve dar-se relevo à poupança em baixa na qual nos fixaremos a seguir.

 

A poupança não é mais um indicador. É o indicador decisivo do crescimento sustentável apesar da notável ausência da esmagadora maioria das análises.

 

A produção de bens e serviços está dependente da acumulação de capital Este capital representa produção efectuada em períodos anteriores, mas que não foi consumida, isto é, foi poupada. Para produzir mais bens e serviços precisamos de mais capital; para ter mais capital haverá que ter mais poupança. Esta é uma realidade universal embora a complexidade das sociedades modernas, com as suas múltiplas instituições - como a moeda, o Estado e a mobilidade internacional do capital - provoque o seu obscurecimento e dê azo ao aparecimento de teorias erróneas que diminuem o papel da poupança.

 

A adesão a esta percepção tem explicações multifacetadas, mas dois factores sobressaem.

 

Um dos factores é o peso crescente e esmagador do Estado na sociedade. Entre outros canais de influência deste factor deve sublinhar-se o condicionamento que os poderes públicos efectuam sobre o ensino e a investigação económica nas escolas estatais. Em vez de se evidenciar, como sublinhavam os clássicos, os grandes equilíbrios económicos, com relevo para a função da poupança, é dada prevalência à ilusória capacidade dos Estado de actuar - por via das manipulações da moeda e da dívida pública - sobre as variáveis reais da economia. As crises financeiras cada vez mais frequentes e graves são em grande parte resultado da aplicação em política económica destas ideias sobre a função e significado da poupança.

 

O outro factor é o fim do acordo de Bretton Woods em 1971. O facto de o ouro ter perdido a sua última ligação ao sistema monetário acelerou o processo de menorizarão da percepção da função da poupança em resultado da possibilidade de emissão desbragada de moeda e de dívida que atingiram, após os anos 1970, níveis nunca vistos. Porém, nem a concomitante redução do crescimento económico foi suficiente para reabilitar a velha e sempre válida função económica da poupança, tal é a êxtase permanente que aquela possibilidade trouxe a toda a espécie de intervencionistas.

 

No período 1995-1999, a média taxa de poupança das famílias era em Portugal de 11,6 % contra 11,9 % da UE. No período 2014-2016 foi de 10,5 % da UE e de 4,7 % em Portugal. Há entre 1995 e 2016 uma estabilidade na UE: entre um mínimo de 10,2% e um máximo de 12,9%; em Portugal há uma nítida tendência á queda: no mesmo período teve um máximo de 12,5% e um mínimo de 4,3% (em 2016) - a queda acentuou-se nos últimos 3 anos, passou de 7,8% em 2013 a 5,2% em 2014, continuando a descer até hoje: 4,5% (em 2015) e 4,3% em 2016.

 

Até 2005, a taxa de poupança das famílias portuguesas ainda mantinha nível próximo da UE: no período 1999-2005 a média era de 10,3% em Portugal e 12 % na UE. Depois, a divergência aprofunda-se significativamente. No período 2014-2016 as médias já são de 4,7% em Portugal para 10,5% na UE.

 

O rendimento disponível das famílias em Portugal aumentou 49% entre 1999 e 2016 enquanto a poupança decresceu 44%. Por contraponto, no mesmo período, na UE o rendimento disponível e a poupança aumentaram ambos, 57% e 36%, respetivamente.

 

Este descalabro da poupança não foi acompanhado, em Portugal, por igual evolução do consumo. Entre 1995 e 2008 o consumo real per capita aumentou 32% e entre 1995 e 2016 o aumento foi de 28%.

 

O maná do euro desfez a poupança portuguesa e sustentou o consumo.

 

Mas o falhanço do projeto de um euro com relevância internacional suficiente para enfrentar o papel dominante do dólar não permitiu gerar suficiente senhoriagem para alimentar novo crescimento dos excessos de consumo. Um euro internacional falhado gerou pouca senhoriagem e conduziu ao cansaço do distribuicionismo europeu.

 

A economia portuguesa não escapará ao que for a sua poupança.

 

Economista e professor no ISEG

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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mais votado Anónimo 22.08.2017

Todos os portugueses deviam ler este artigo ou eventualmente uma versão mais leve que possa ser entendido por todos. O que aqui está exposto é de importância vital para este país ter um futuro sustentável.
E não me venham com a conversa de que não se pode poupar aquilo que não se ganha, isso é aplicável apenas a uma franja da população extremamente pobre, qualquer pessoa por pouco de ganhe tem que ser capaz de poupar algo (por pouco que seja), ou ainda mais importante, não gastar mais do que ganha.
Sem poupança não há investimento, sem investimento não há futuro.
Se a população não é capaz de perceber a importância da poupança, ao menos o Estado devia dar o exemplo, procurando atingir rapidamente um superavit global (não apenas o primário) aproveitando o pico de crescimento económico (não se sabe quanto tempo o crescimento durará...). Em vez disso, preocupam-se em discutir (PS, BE, PCP) como vamos gastar a folga que o crescimento acima do previsto irá trazer.
Assim não vamos lá...!!!

comentários mais recentes
Anónimo 22.08.2017

"Poupar custe o que custar" e vai daí os portugas começaram a comprar pópós em barda, ele sao mercedes, bmws, audis, e pelo ranking de vendas estas marcas tem os maiores crescimentos. Será bom lembrar também o crescente aumento no recurso ao crédito para comprar carros. Assim começa o desastre!!

surpreendido 22.08.2017

Muito bem Camilo Lourenço

Carrega Camilo Lourenço 22.08.2017

Tenho que ser franco :) não te gramo mas desta vez concordo :))

Outro 22.08.2017

Outro amigo do Diabo, não há pachorra para esta escumalha do seculo passado

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