Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 08 de fevereiro de 2018 às 22:15

Ainda temos o BCE (mas o minicrash foi um aviso)  

Em semana de mini-crash nos Estados Unidos, a dívida portuguesa e dos países periféricos foi vista como refúgio. Esta extraordinária mudança de percepção vai manter-se enquanto durar o desfasamento entre a política monetária na Europa e nos EUA – a seguir virá um caminho perigoso e nunca antes trilhado.

Na semana em que um minicrash nos Estados Unidos tirou o pó às palavras "volatilidade" e "ansiedade", não seria estranho que a dívida pública portuguesa e a de outros países frágeis do euro tivessem sentido as ondas de choque. Mas nada aconteceu - nem um arrepio. A diferença entre as taxas a dez anos da Alemanha e de Portugal, uma medida de risco relativo, estava ontem no mínimo do último ano. Um analista notava esta semana que a dívida portuguesa é transaccionada agora mais como um activo de refúgio do que como um activo arriscado. Esta mudança de percepção, tão extraordinária como frágil, merece ser destacada - até porque enfrenta testes maiores, de que este minicrash foi um primeiro aviso. 

 

A percepção de que a inflação e as taxas de juro vão subir nos Estados Unidos - ou seja, de que estamos perante o fim de um longo ciclo de dinheiro historicamente barato - é o factor que unifica as teses sobre o regresso da volatilidade às bolsas e às obrigações do Tesouro norte-americano. Na Europa, contudo, vamos mais atrás e este desfasamento é uma primeira explicação para a resistência de Portugal. O Banco Central Europeu tem estado a recuar gradualmente no ritmo do seu programa de estímulo, mas ainda está a injectar dinheiro no sistema. A inflação abaixo do objectivo do BCE e a retórica suave de Draghi têm posto o mercado a pensar que o programa de compra de títulos vai durar até ao final do ano.

 

Neste cenário de liquidez alta e garantia do guarda-costas BCE, os investidores valorizam quem lhes dá mais retorno - e o prémio de risco de 1,3% da dívida portuguesa face à alemã significa retorno adicional nesta categoria de activos. Os analistas adaptam a sua narrativa ao contexto e, ao mesmo tempo que falam menos das antes notadas fragilidades, valorizam os passos positivos em Portugal e na Europa: o aumento das maturidades da dívida, o Governo que afinal não é de esquerda radical e que baixa o défice até perto de 1%, a subida do "rating" da República, o crescimento da economia, a grande coligação na Alemanha. (O risco político a caminho das eleições no maior devedor de todos, Itália, é secundarizado.)

 

Este estado de coisas vai, no entanto, chegar ao fim na Europa. E, se a política de estímulo massivo dos bancos centrais trilhou terreno desconhecido, também a sua retirada e inversão significam algo inédito e por testar. Essa incerteza, por si só, será suficiente para agitar um mercado que, desperto da anestesia, passará a olhar mais para os riscos geopolíticos e para o risco dos devedores: do aumento da dívida empresarial na Europa (veja-se o caso paradigmático da Altice) ao elevado grau de endividamento público em países como Portugal. Não foi por acaso, de resto, que Mário Centeno sublinhou esta semana, para consumo externo, que a queda nas taxas de juro da dívida se deve à política do Governo e não do BCE. 

 

Por enquanto as economias crescem, ainda há muito dinheiro acumulado no sistema e um BCE ainda a distribuir anestesia - sendo certo que os juros vão subir mais à frente, é difícil perspectivar uma mudança drástica para Portugal a muito breve trecho (um dado importante para a economia e para os equilíbrios na política portuguesa). Mas, para quem olha além do curto prazo, o minicrash nos Estados Unidos sugere que o regresso à normalidade financeira, com subida das taxas de juro, significará mais turbulência, por vezes com movimentos bruscos e geradores de ansiedade na bipolar comunidade financeira. Das famílias às empresas, passando pelo Estado (atenção ao Orçamento para 2019), é muito importante ter em conta este risco no horizonte na hora de fazer escolhas.

 

Jornalista da revista Sábado

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comentários mais recentes
Anónimo Há 1 semana

Excelente artigo. É certo que em 2019 o BCE, vai começar a subir as taxas de juro, para impedir pressões inflacionistas. Vai haver de novo, muitas casas entregues aos bancos, porque o crescimento generalizado dos preços da habitação, não está a ser acompanhado, pela subida real dos salários.

Johnny Há 1 semana

O dia em que o BCE acabar com os estímulos, os juros da divida portuguesa EXPLODEM imediatamente para 30% ao ano.
Está tudo doido dos crnos ou que? alguma coisa mudou ?