Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 11 de maio de 2017 às 20:09

Além do "blitz" de boas notícias

A conjuntura foi crucial para António Costa credibilizar a sua solução de Governo. Está por demonstrar que Costa não é um mero gestor de conjuntura.

As notícias sobre a economia? O que cito a seguir são títulos da imprensa portuguesa apenas nas últimas três semanas. "Desemprego cai para 10,1%" (o valor mais baixo desde 2009). "Insolvências caem 20% no primeiro trimestre." "Venda de casas bate recorde em Março" (o ritmo mais forte desde 2010). "O novo financiamento às famílias aumentou, no primeiro trimestre, 28% face ao período homólogo de 2016." "Crédito à habitação sobe [em Março] para máximos de sete anos." "Confiança dos consumidores em máximos de 2000." "Mercado automóvel com crescimento de 17,9% em Abril" (um aumento de 5,8% acumulado desde Janeiro, quase o triplo do previsto pela associação do sector). "Exportações e importações voltam a disparar em Março" (17,1% as exportações, 15,3% as importações quando comparado com o primeiro trimestre de 2016). "Portos com a melhor marca de sempre no primeiro trimestre." "Negócios na indústria aceleram 13% em Março." "Receitas do turismo sobem 13%." "Finanças: Bruxelas confirma que Portugal está em condições para sair do Procedimento por Défice Excessivo." "Défice fica em 2,1%, o mais baixo desde 1974." "Juros da dívida portuguesa são os que mais caem na Europa."

 

É um "blitz". Depois dos anos de chumbo estamos perante a exuberância irracional de que falam os "credores do Norte"? Não necessariamente - pelo menos para já. A concessão de crédito às famílias aumenta, mas o valor acumulado de dívida continua a cair. O consumo aumenta, mas só agora iguala o padrão registado há uma década. As importações sobem, mas as exportações (incluindo os serviços onde está o fenómeno do turismo) cobrem a parada e as contas externas seguem equilibradas. No fundo, parece que estamos a regressar onde estávamos antes do sismo de 2011, mas com contas externas e públicas equilibradas, um caminho iniciado ainda na crise do euro. O padrão no consumo passará a ser preocupante a partir do momento em que se mantenha a crescer com esta força na ausência de outros motores - veremos.

 

Na política, este "blitz" tem implicações óbvias: governar com vento a favor é evidentemente muito mais fácil, sobretudo depois de uma crise duríssima e de as figuras que governaram nessa crise terem iniciado a sua vida na oposição com a economia e as contas públicas como cavalo de batalha. A direita está sem discurso. A economia a crescer facilita a consolidação orçamental (que vai à boleia da economia), ajuda a manter viva a agenda de "reposição de rendimentos" - na prática significa que há mais gente com a vida melhor ou menos má. Nestas circunstâncias o que surpreende é a passividade da oposição interna aos líderes do PSD e do CDS - talvez as autárquicas venham mudar isso (ressalva: é bom não esquecer que Passos Coelho talvez seja o político mais subvalorizado de sempre, à custa dos adversários e dos analistas que lhe decretaram a morte política).

 

Fora do jogo sobra o mais importante: a política pública. Este "blitz" de boas notícias não oferece apenas um contraste face aos anos recentes da crise - está em contraste com a vulnerabilidade real de um país periférico com 130% de dívida pública, uma banca ainda a sair do buraco, empresas sobreendividadas, uma justiça esclerosada, uma população em queda e ainda por qualificar. Enquanto a economia recupera, suportada por factores conjunturais, é importante agir gradualmente sobre estas frentes, assumindo os inevitáveis conflitos. A conjuntura foi decisiva para António Costa credibilizar a sua solução de Governo - mas está por demonstrar que Costa não é um mero gestor de conjuntura.

 

Jornalista da revista Sábado

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mais votado IS 30.06.2017

Bom texto de Bruno Faria Lopes.

comentários mais recentes
IS 30.06.2017

Bom texto de Bruno Faria Lopes.

Anónimo 16.05.2017

Blitz, dicionário priberam: "Operação militar de ataque, caracterizada pela surpresa e intensidade dos meios envolvidos." Surpresa/intensidade: dois conceitos que se aplicam bem no contexto do artigo.

5640533 15.05.2017

Blitz significa relâmpago ou seja uma coisa rápida. Como Blitzkrieg = guerra super rápida. Não está certa a utilização neste artigo.