Fernando Maurício Garcia
Fernando Maurício Garcia 10 de janeiro de 2017 às 10:28

Alerta laranja nos investimentos. Para onde fugir?

"Para sairmos da 'fossa' em que caímos, carecemos de investir; mas para investir sem nos endividarmos, precisamos de poupar; e para poupar é imperativo estimular quem poupa".
Já fomos dos melhores; hoje somos dos piores. Estamos mal e como nunca estivemos (desde que há estatísticas), em termos de poupança.

Como se não bastasse, estamos também mal em termos das oportunidades que se oferecem para rendibilizar o que se vai poupando; para defender o que já se poupou; para transmitir à geração seguinte o que com tanta esperança nos foi legado pelas gerações anteriores.

Porquê então poupar, se a recompensa do que se poupa não tem comparação no presente com o que foi no passado ou, "ainda pior a emenda do que o soneto" como o Bocage voltaria do túmulo a repetir, se as previsões para o futuro são, para mais, preocupantes?

Será antes assim preferível não deixar para amanhã o consumo que se pode fazer hoje?

Resistir no consumo, contra-atacar nos investimentos

A cada um de decidir, mas a todos nós de não olvidar a sabedoria do passado. É necessário pensar-se com La Fontaine, não como cigarras que imprevidentemente tudo gastam, mas como formigas que prudentemente acautelam o futuro, acumulando-se reservas para emergências; para se complementar reformas incertas no tempo e no valor; para educar e apoiar quem nos há de continuar; para manter a esperança de vir a concretizar sonhos de uma vida.

E, se hoje as recompensas nos investimentos para quem poupa, não são o que foram nos tempos da "belle époque" finda em 2008 - também não se esfumaram para sempre nos horizontes do presente.

Noite sempre mais escura antes do amanhecer

É da história dos Homens e dos mercados de capitais que muitas vezes, quanto pior no presente…melhor no futuro!

É verdade que dificilmente a noite poderia ser mais escura: a taxa de juro, segundo o Banco de Inglaterra, nunca foi tão baixa nos últimos 5000 anos e a sua eventual subida vai gerar menos valias na "boia de salvação " das obrigações; os depósitos já não são (juros e o que ocorreu em Chipre), o indiscutível "porto de abrigo" de viúvas e órfãos; o "salva vidas" das ações oferece (McKinsey) perspetivas de rendibilidade a 20 anos de apenas 4 a 6.5% nos EUA e de 4.5 a 6% na UE; há no horizonte riscos de bolhas especulativas, como o presidente cessante da CMVM alertou, etc.

Mas a vida não para e não secaram "ex abrupto" as fontes de rendibilidades supranormais compensatórias de tempos de "vacas magras". Apenas se registaram migrações para outras paragens, e aos investidores e a quem os serve, de as explorar - com prudência, mas com a garra que, ao menos valha-nos isso, nunca escasseou aos Portugueses.

Evoque-se a recente emergência dos "Betas inteligentes" com a combinação do melhor dos dois mundos da gestão passiva e dinâmica, e cite-se o novo fôlego conquistado pelo que só por si justificaria a gestão de ativos: a diversificação. Com a globalização, a eficácia do único "almoço grátis" dos mercados, minguou, como o "terramoto" financeiro de 2008 o evidenciou. Mas o valor do mesmo também é função do número de instrumentos envolvidos. Ora a recente revolução dos ETFs (quase 5 milhares no momento presente; previsões de captação de capitais a ritmo duplo dos tradicionais fundos de investimento; espetacular redução de custos de transação), veio insuflar nova vida à possibilidade de captar prémios de risco e converter positivamente em acréscimos de rendibilidade as volatilidades negativas dos mercados.

Fogo com todas as peças

Com os ETFS viabilizou-se o aproveitamento do que, desde Sharp e Brinson, se evidenciou como os principais motores do sucesso nos investimentos.

De fato os ETFs possibilitam garimpar ativamente e captar passivamente prémios de rendibilidade por tipo de ativos, por países, por setores, por estilos de investimento, por estratégias, por fatores de sucesso (Momentum, Valor, Qualidade, Dimensão).

Tal pode-se traduzir-se na oportunidade de uma significativa melhoria de resultados, e na possibilidade de um inteligente aproveitamento para investimentos, na linha do sugerido por Keller professor da universidade de Amesterdão como alternativa aos depósitos, e uma tentativa de "fazer fogo com todas as peças" do arsenal da gestão de ativos.

A estratégia de Keller, significativamente designada por "Protective Asset Allocation", foi realisticamente testada "out of sample" no período de 1993 a 2015, e proporcionou um retorno anualizada de 10.5%. O seu objetivo assumido é o da consecução de uma rendibilidade simultaneamente estimulante e, com probabilidade de 95%, nunca negativa em qualquer ano.

Estimular quem poupa, apoiar quem investe

O nosso País encontra-se em difícil situação crescendo a ritmo anémico; com desemprego nos últimos anos desconhecido na memória das gerações vivas; com um nível de dívida pública em relação ao Pib já superior ao que levou à bancarrota no tempo de D. Carlos; com uma taxa de poupança possivelmente insuficiente para manter intacto e fazer crescer o património herdado.

Para sairmos da "fossa" em que voltámos a cair, carecemos (como pão para a boca) de investir; mas para investir sem nos endividarmos ainda mais, precisamos de poupar; e para poupar é imperativo estimular quem poupa, oferecendo remuneração compensatória do inerente sacrifício. Tal é hoje tão difícil, como seria no antanho uma "lança em Africa"; mas, não é infactível e cremos estar ao alcance dos nossos melhores da gestão de ativos.

Estes últimos têm reconhecidamente reservas de criatividade qb. como o têm demonstrado os que seguiram os caminhos da emigração. Apenas não deixará de ser relevante que: fruam de direção refletindo em prioridade aos interesses de quem os emprega, os interesses dos clientes dos seus produtos, como manda a lei; que não sejam tratados à Pôncio Pilatos ou "para inglês ver", desideratos de transparência na divulgação de riscos; que as comissões cobradas reflitam os custos incorridos, e não privilégios de oligopólio, ou objetivos de maquilhagem de ineficiências; que se invista menos em atividades de autopromoção e mais na criação de novos produtos de qualidade e na formação de quem os vende (até por interesse próprio em antecipação ao "tsunami" que aí vem de concorrência estrangeira, a partir de 2018).


Este artigo foi redigido ao abrigo do novo acordo ortográfico.



A sua opinião0
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar