José Paulo Esperança
José Paulo Esperança 02 de Novembro de 2016 às 18:56

Alunos estrangeiros, uma questão estratégica

O ensino superior português enfrenta obstáculos e riscos. Num contexto cada vez mais global, Portugal não pode manter níveis de compensação muito diferenciados de outras "potências universitárias".

Existe um número cada vez maior de estudantes do ensino superior a obter formação fora do seu país. A China, a Índia e o Brasil estão entre os maiores países de origem, enquanto os EUA, o Reino Unido, o Canadá, a Austrália e a Alemanha são os principais recetores de estudantes estrangeiros. A emergência do inglês como principal língua franca favorece as universidades dos países respetivos, associada à sua forte reputação internacional. No entanto, a progressiva oferta de cursos - licenciaturas, mestrados e doutoramentos - em inglês permitiu a outros países, com destaque para a Alemanha, França e Espanha, tornar-se importantes centros de captação de alunos estrangeiros.

 

Apesar do seu impacto positivo - receitas diretas das universidades, dinamização da economia local, contributo para o conhecimento, capacidade empreendedora, e reforço das competências das empresas, por exemplo, ao nível do acesso aos mercados de que estes estudantes são oriundos -, a crescente resistência aos fluxos migratórios tem aumentado os obstáculos à sua mobilidade.

 

Os EUA tornaram-se menos acessíveis após o 11 de setembro de 2001, favorecendo outros destinos, com destaque para o Reino Unido. Mais recentemente, mesmo antes do referendo favorável ao Brexit, a política de acolhimento para estudantes exteriores à União Europeia tornou-se mais exigente, levando muitos estudantes a procurar destinos alternativos. Em 2015, foi já registada uma queda substancial do número de novos estudantes estrangeiros admitidos por universidades do Reino Unido.

 

O ensino superior português pode beneficiar da maior liberdade de movimentos do espaço Schengen e da abertura da União Europeia em relação ao exterior. As vantagens nacionais resultam ainda de fatores contextuais como a segurança e os baixos custos de propinas e alojamento, mas sobretudo da posição relativa das universidades portuguesas. A entrada de universidades de dimensão intermédia como a UBI e o ISCTE-IUL no "ranking" da Times Higher Education, que favorece as escolas de maior dimensão, vem dar relevo à qualidade da investigação e ensino das universidades portuguesas. Segundo dados da Unesco relativos a 2014, Portugal recebeu 14.900 alunos estrangeiros, cerca de um terço brasileiros, enquanto 9.500 estudantes portugueses estudavam no exterior, cerca de um quarto no Reino Unido.

 

O ensino superior português enfrenta obstáculos e riscos. Num contexto cada vez mais global, Portugal não pode manter níveis de compensação muito diferenciados de outras "potências universitárias". A atração e a manutenção de professores e investigadores de qualidade, portugueses e estrangeiros, é hoje um desafio considerável.

 

No entanto, o desenvolvimento da investigação produzida em Portugal e a afirmação das universidades portuguesas nos "rankings" internacionais tem-se traduzido na captação de um número cada vez maior de alunos estrangeiros. É fundamental criar condições para uma melhoria contínua da oferta nacional de um ensino de qualidade. Os benefícios, económicos, demográficos e sociais são inquestionáveis.

 

Diretor da ISCTE Business School

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

A sua opinião0
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar