Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 16 de agosto de 2017 às 21:00

Ameaça à soberania

Durante estes dias tem-se falado, a propósito das manifestações da extrema-direita em Charlottesville nos EUA, na questão de se saber se as ações lá praticadas integravam ou não o conceito de terrorismo doméstico.

A pergunta foi aliás colocada ao Presidente Trump, que evitou expressar a sua posição. Na verdade, há conceitos que são incómodos, porque traduzem realidades mais do que incómodas. O que se passa, há anos, com os incêndios pode-nos levar a configurar o conceito de ameaça interna, neste caso, ameaça à nossa soberania e à riqueza nacional. Um Estado, que o seja verdadeiramente, tem de ter um povo-nação, tem de dispor de um território e esse povo tem de ter a capacidade para decidir os seus destinos de modo soberano. O que nunca pode estar incluído no conteúdo dessas decisões é a alienação do seu território, porque então deixaria de haver Estado. O que não faz sentido também é um Estado não ser capaz de conservar esse seu ativo primeiro, essencial, estrutural. Pode não o alienar, mas se deixa que ele seja dizimado, desbaratado, vandalizado, está a demonstrar incapacidade no exercício da soberania. Há semanas aconteceu o episódio de Tancos e foi muito falado que, por definição, não deve acontecer falta de segurança em instalações à guarda das forças militares. Trata-se aí, também, de uma questão de poder, de autoridade, ao fim e ao cabo, também de soberania.

 

Aqui, na gestão do território, acontece algo de semelhante mas, em grande medida, é mais grave. E o que mais impressiona nas sociedades contemporâneas é um certo tipo de indiferença, cada vez mais rotinada, perante acontecimentos desta dimensão. Portugal tem perdido valor atrás de valor: em nenhum outro país se deixou pôr em causa a existência de um grande banco; em nenhum outro país da Europa se deixou dizimar a principal operadora de comunicações, para mais de génese pública; e em nenhum outro país da Europa se destrói riqueza natural como tem acontecido em Portugal por causa deste flagelo dos incêndios.

 

Na minha maneira de ver, profundamente convicta e interiorizada há muitos anos, há matérias que não deviam ser tratadas em público pelo Governo e pela oposição. Muito bem, pode haver responsabilidade política. Se houver, ela tem de ser apurada, mas, num país sujeito às consequências de tal flagelo, Governo e oposição têm obrigação de tratar do assunto até à exaustão, sem conversas públicas, com as medidas necessárias para o presente e para o futuro, para salvaguarda do património que é de nós todos. O Governo devia convidar a oposição para estar presente nas equipas de trabalho que vão levar a cabo o que é necessário para isto não continuar e a oposição devia disponibilizar-se para o efeito. Não tenho dúvida alguma em afirmar que esta seria, que esta é, a via correta face ao interesse nacional. Se a democracia e o combate político, que normalmente ela envolve, fossem incompatíveis com estes procedimentos, seria muito triste. Já alguém imaginou, mesmo numa perspetiva egoísta de contabilidade eleitoral, o que ganhariam os responsáveis políticos que fossem capazes de agir deste modo? É que já chega, ano após ano. E este ano está a ser, como todos sabemos, muito complicado. O Presidente da República é insuperável a levar afetos e abraços aos que sofrem, mas tem de ser capaz de, pelo menos, juntar aqueles de cujas decisões dependem que se consiga, de uma vez por todas, pôr cobro a esta calamidade. 

 

Advogado

 

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Amado,CP.,AssociadoM.G.,Lesado.Banif.,Militante.PS Há 4 dias

ESTA GENTE É O MÁXIMO ! EU QUE À UMA MEIA DÚZIA DE ANOS AMBICIONAVA VER ESTE PEDAÇO DE TERRA NO ESTADO DE : "CAOS";...ESTARÁ DENTRO EM POUCO ! GRANDES HOMENS TÊM AVANÇADO E CONTRIBUÍDO PARA TAL, BEM HAJAM ! UM PR Q DESTRIBUI AFETOS, UM 1º Q VAI A BANHOS ENQUANTO OS "INCENDIÁRIOS" DÃO SHOW !

Anónimo Há 4 dias

A manifestação de cidadãos neo-nazis/supremacistas brancos/TeaParty/anti-semitas/Alt-Right tinha sido autorizada pelo governo. A interpretação do autor é incompleta no sentido em que a calamidade dos incêndios resulta de decisões políticas e administrativas de governos e não de cidadãos.

Anónimo Há 4 dias

Concordo plenamente. Deitar as culpas aos outros (PM), levar afetos (PR), são a parte fácil que qualquer um faz. O que os grandes lideres devem fazer, é isso mesmo, a parte difícil de fazer convergir todos para um bem comum.
É preciso grandes lideres, abnegados, coisa que não estamos a ver