Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 25 de setembro de 2017 às 20:31

Ângulos de visão

Quem continuar a observar os acontecimentos na perspectiva da dicotomia horizontal esquerda/direita não consegue encontrar interpretação satisfatória para a presidência Trump.

A FRASE...

 

"Afinal são as exportações o que vem aumentando o crescimento. O crescimento de 1,4% de 2016 foi devido a 0,5% promovido pelo consumo interno, mas 0,9% pelas exportações. E para 2017, a previsão de crescimento de 2,5% será devida a um crescimento de 1,8% das exportações enquanto a procura interna se fica por uns míseros 0,8%."

 

João Duque, Expresso, 23 de Setembro de 2017

 

A ANÁLISE...

 

Não importa a cor do gato, desde que cace ratos. Porém, é preciso que o gato não morra: qualquer que seja a sua cor, gato morto pode assustar, mas não caça ratos. Deng Xiaoping não se limitou a encontrar a fórmula para a estratégia, também tratou da saúde do gato - abriu a China ao comércio externo.

 

Se há crescimento, para quê debater se é pela procura interna ou pelas exportações? É o problema da vida do gato. Numa economia com a escala de mercado da portuguesa e com uma sociedade em envelhecimento demográfico, o crescimento pelo mercado interno, estimulado pelas políticas de redistribuição de rendimentos ou financiado pelo endividamento, corresponde a uma estratégia de gato de vida curta: morre o gato (redistribuir o redistribuído acaba em zero) e os ratos ficam livres. A estratégia de abertura aos mercados externos, criando condições atractivas para o investimento e explorando as conexões das cadeias de produção, é o equivalente actual ao que foi a escolha pela expansão e pelo império noutros períodos históricos.

 

Mas o ângulo de visão também é importante para se interpretar a mudança política que está a ocorrer nas sociedades desenvolvidas. Quem continuar a observar os acontecimentos na perspectiva da dicotomia horizontal esquerda/direita não consegue encontrar interpretação satisfatória para a presidência Trump ou para as eleições legislativas na Alemanha, dois exemplos em que a linha esquerda/direita se deforma numa curvatura, descendo e fragmentando-se o centro e crescendo os extremos. Para compreender o que se está a passar é preciso usar também o eixo vertical que contrasta a sociedade fechada com a sociedade aberta: os extremos querem as sociedades fechadas e proteccionistas do nacionalismo que foi anterior ao fim dos impérios europeus, os que sabem que os impérios europeus não podem ser reconstituídos defendem as sociedades abertas e competitivas para assim atingirem a escala de que precisam para o seu crescimento económico continuado.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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comentários mais recentes
Mr.Tuga 26.09.2017

Pois, mas os do Largo dos RATOS tem medo de GATOS com visão de futuro....