Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 27 de dezembro de 2017 às 18:53

Ano Novo, mundo novo 

A passagem de ano pode ser apenas a mudança de calendário: passa-se de um ano para o outro virando uma folha. Esta passagem de ano será diferente.

A FRASE...

 

"É um líder desagregador, narcisista, impulsivo e errático. Só é constante na imprevisibilidade. Um ano depois, o declínio da América parece irreversível."

 

António Costa Silva, Expresso, 23 de Dezembro de 2017

 

A ANÁLISE...

 

O segundo ano de exercício presidencial de Donald Trump anuncia uma crise de grande intensidade de onde nascerá um mundo novo. O actual padrão de ordem mundial já acumulou desequilíbrios que não resolve (entre o nacional e o global, entre os distributivos e os competitivos, entre os beneficiários e os contribuintes das políticas sociais - e quando os beneficiários, em número e em prazo, forem mais do que os contribuintes, o dispositivo está condenado). O aparecimento do mundo novo só aguardava a chegada de um pretexto. Durante o ano que termina, viu-se que Trump era um bom candidato a essa função de detonador da mudança. Ignorante da complexidade dos assuntos da política, especialista em falências de que se serviu para acumular a sua riqueza pessoal, será incapaz de se ajustar a uma derrota e retomar uma trajectória de equilíbrio: quanto mais perder, mais aumentará a ousadia das suas apostas - e a última aposta aparecerá nas eleições de Novembro.

 

O que se pode esperar do ano que agora começa é que Trump cumpra o destino do clinâmen de Epicuro, o átomo desviado (ou átomo livre ou átomo louco) que serve ao materialismo aleatório para explicar a "mudança de mundo" sem ter de recorrer à vontade divina ou ao processo dialéctico da luta de classes internacionalista. Este átomo livre distorce a ligação do passado (onde já ninguém vive) com o futuro (onde uma parte da sociedade não quer viver) e produz a divisão da sociedade em grupos de dimensão idêntica, que se bloqueiam mutuamente. De um lado, os da revolução conservadora (que querem reproduzir o passado quando já não há as condições do passado). De outro lado, os das redes de conectividade e da mobilidade com geografias variáveis (que estão a construir as condições do futuro). 

 

O mundo novo que sairá da crise de Trump implicará a escolha do futuro, onde estão os que vivem, para se poder deixar o passado aos mortos.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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