Fernando  Sobral
Fernando Sobral 20 de novembro de 2017 às 21:50

António Costa em versão Sinatra

Nunca seria fácil a António Costa fazer um número de magia eterno que conseguisse hipnotizar, ao mesmo tempo, Bruxelas, o PCP e o BE.

Antes de ir dar um dos seus primeiros concertos no Desert Inn de Las Vegas, Frank Sinatra ainda não valia por si próprio. Assim, para promover o espectáculo, disse: "Por seis dólares podes ter um jantar de 'filet mignon' e também a minha presença." Frank valia menos do que o "filet mignon". Era uma espécie de sobremesa, mais ou menos gratuita. No Portugal destes dias, o custo do silêncio dos professores (e sobretudo da inacção nervosa de Mário Nogueira) são umas centenas de milhões de euros e a disponibilidade atenciosa de António Costa. É um exercício de cozinha pouco comum, de síntese entre a da velha gastronomia e a dos novos "chefs". Normalmente o resultado é um prato intragável. Ou seja, o acordo é baixo em calorias à base de espumas e nitrogénio líquido, mas que utiliza também chouriço e entrecosto. É esse o pitéu que permite manter de pé o acordo entre PS, PCP e BE. A questão é, claro, como manter este castelo de cartas, onde quem parece estar sempre a ceder é o Governo. Até porque este, há meses, está na defensiva, sem rasgos de iniciativa política.

 

Nunca seria fácil a António Costa fazer um número de magia eterno que conseguisse hipnotizar, ao mesmo tempo, Bruxelas, o PCP e o BE. Alguém se iria distrair. Uma das chaves desta actividade de prestidigitação era iludir todos com truques que dependiam especialmente da rapidez e agilidade das mãos e da ilusão retórica. O problema é que, na política, a magia custa dinheiro. Para abater a dívida não há muitos fundos para satisfazer todas as reivindicações do sector público. Mesmo que possam ser justas. Sobram as cativações como extintor. Só que estas levam a uma cada vez maior degradação dos serviços públicos e das infra-estruturas. O Governo não pode acudir a todas as solicitações. Mais rapidamente do que seria previsível, a descarga eléctrica vai abalar este edifício maioritário em que as boas vontades se sobrepunham às más. Esses tempos acabaram, como se vai observar depois da aprovação do OE. E aí se verá se António Costa actua como Sinatra. Ou não.

 

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comentários mais recentes
Mr.Tuga Há 3 semanas

Certíssimo!

Anónimo Há 3 semanas

já se perguntaram porque é que que os funcionários da RTP E ANTENA 1 nunca fizeram greve? Porque será ? Com a historia de serviço publico lá se vão safando. VERGONHA

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