Paulo Carmona
Paulo Carmona 30 de maio de 2017 às 00:01

António Janus

Para lá da mudança que operou na política portuguesa este é também um Governo de duas faces, figura onde o Syriza grego foi pioneiro. Ou seja, mostrar uma face mansa para a União Europeia e os credores e outra valente para consumo interno.

A FRASE...

 

"À margem do encontro dos ministros das Finanças em Bruxelas, o ministro Schäuble teve uma conversa sobre futebol e a estrela portuguesa de futebol Cristiano Ronaldo. Num reparo descontraído e amigável, o ministro notou que o conselho do Ecofin também tem uma estrela portuguesa: o ministro Centeno."

 

Porta-voz de Schäuble, Negócios , 26 de maio de 2017

 

A ANÁLISE...

 

Janus era o deus romano das mudanças e transições, conhecido e representado com duas faces, cujo nome deu origem ao mês de janeiro.

 

De facto, este Governo é de transição para um tempo novo, reconfigurando o arco governativo e chamando as margens políticas de protesto para uma solução de apoio ao Governo. É também um governo de mudança, nos hábitos de que nem sempre o partido que ganha as eleições forma governo, como acontece em economias maduras, e sobretudo na mudança que provocou nos seus parceiros, especialmente no Bloco de Esquerda, que passaram de ameaçadores tigres a dóceis e ronronantes gatinhos. É um dos grandes méritos deste Governo, ter "syrizado" a esquerda de protesto através da partilha de poder e responsabilidade, até ver. Convém ir lendo nas entrelinhas do PCP, o partido mais informado e profissional…

 

Para lá da mudança que operou na política portuguesa este é também um Governo de duas faces, figura onde o Syriza grego foi pioneiro. Ou seja, mostrar uma face mansa para a União Europeia e os credores e outra valente para consumo interno.

 

Há um ano, o novo Ronaldo do Ecofin era confrontado pelos seus pares com uma provável derrapagem no orçamento. Já por cá, a coberto da narrativa de abaixo a troika, os malandros do governo anterior e na reposição de rendimentos, pela calada e sem a maçada dum Orçamento Retificativo, radicalizam as cativações de despesa e cortavam a fundo no investimento público. Numa narrativa anti-austeridade, vai além da troika na redução do défice numa economia que não cresce… e depois acontece o milagre neoliberal de Portugal ir até aos 2,8% de crescimento com o estímulo fiscal negativo dum orçamento contracionista e de clara redução da despesa e do défice. O oposto do que defendiam o Programa do Governo e alguns keynesianos de serviço.

 

Com uma narrativa interna de esquerda, diferente da externa e da sua "praxis" de inspiração liberal, este Governo de duas faces tem assegurado a necessária estabilidade macroeconómica e social, mantendo políticas e controlo fiscal. Um feito assinalável. Oxalá as narrativas aguentem…

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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