Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 26 de janeiro de 2017 às 20:25

Aproveite a viagem!

No início de cada ano, avaliam-se as possíveis tendências dominantes no mercado de capitais. Este ano, tomando o pulso às principais preocupações dos investidores, podemos defrontarmo-nos com doze meses peculiares.

Os assuntos que deverão atrair a maioria das atenções serão:

 

- A envolvente macro ou a persistência de reduzido crescimento económico e a tendência das empresas de promoverem a automação para ampliar produtividade e resultados. Esta orientação já pôde ser observada na indústria transformadora e, neste momento, parece avançar para os serviços, tomando os serviços financeiros de assalto. A discussão de como o aumento da produtividade se compagina com a perda de emprego, quando persiste elevado desemprego em algumas regiões do globo, será interessante de acompanhar;

 

- A incerteza política e a proliferação de tendências populistas: a perda de rendimento imputada pela população das economias desenvolvidas à globalização poderá ser uma das justificações da emergência desta tendência, a qual pode pôr em causa os fundamentos das maiores forças motoras do crescimento mundial nas últimas décadas. Maior abertura ao exterior, maior flexibilidade económica, maior competitividade, implicaram fortes ganhos de produtividade e controlo de preços, aumentando significativamente o poder de compra de larga camada da população mundial, a qual agora alimenta o consumo de bens e serviços. Da mesma forma que os resultados eleitorais no Reino Unido e EUA foram interpretados como favoráveis ao fechamento de portas, segue-se com expectativa os desenvolvimentos eleitorais na Holanda, França e Alemanha numa tentativa de tomada de pulso à vitalidade do projeto europeu;

 

- A mudança de regime: a inflação aparenta fazer prova de vida, empurrando as autoridades monetárias para declaração de óbito do ciclo de baixas taxas de juro. A Reserva Federal terá dado o tiro de partida e o BCE timidamente apontou para abrandamento da política expansionista. Como se comportarão as economias desenvolvidas que crescem cerca de 2,5% em termos nominais e defrontam elevados níveis de endividamento com taxas de juro em patamares superiores aos atuais? O que se entende como taxas de juro normais neste contexto? Pode a inflação, de facto, acelerar?

 

- Diversificação de risco: em tempos conturbados, os investidores buscam estratégicas de mitigação de risco. Contudo, a diversificação de risco afigura-se mais desafiante quando a regulação financeira restringe graus de liberdade em termos de modelos de negócio, quando os produtos financeiros tradicionalmente mais seguros se revelam arriscados, quando se intensifica o uso de produtos privados e quando a perceção de concretização de acontecimentos pouco prováveis aumenta. Os lugares seguros para fuga escasseiam.

 

Atravessamos um período interessante em que algumas das grandes verdades enformadoras das dinâmicas económica e política são postas em questão. Certamente, chegar-se-á a um ponto em que se assegura melhoria de bem-estar da população mundial. Entretanto, exige-se concentração na interpretação dos sinais - estratégias de diversificação incluindo momentos de espera, aguardando maior clareza nos movimentos estruturais podem justificar-se. Curiosamente, os fundos de gestão passiva são os grandes ganhadores de investidores enquanto a gestão ativa perde adeptos.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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comentários mais recentes
Anónimo 28.01.2017

A automação é algo pouco falado como um problema, mas está e vai continuar a criar mais desemprego e concentração do capital em quem já tem o capital para investir nos sistemas autónomos. Se os governantes não o reconhecerem e definirem formas de lidar vai ser um gigantesco problema.

José 27.01.2017

O Diabo vai chegar brevemente e ele vem a cavalo.

Mr.Tuga 27.01.2017

BOM artigo!

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