Fernando  Sobral
Fernando Sobral 13 de março de 2017 às 20:15

Arábia Saudita olha para o Japão

A visita do rei Salman da Arábia Saudita à Ásia incluiu a ida ao Japão. Os interesses são mútuos, numa altura em que Riade quer modernizar a economia e Tóquio quer ter uma presença maior na região.

A visita de quatro dias ao Japão do rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz, não é de simples cortesia. E não se esgota na questão das exportações de petróleo para uma região (e para um país) que é bastante importante para a economia petrolífera de Riade. Salman aproveitou para visitar outros países muçulmanos de maioria sunita, tendo como ponto de partida o complexo ambiente que se vive no Médio Oriente, onde todas as alianças parecem pulverizadas face aos inúmeros e contraditórios conflitos. Na Ásia, Salman busca também investimentos que ajudem a reforma profunda da estrutura económica da Arábia Saudita, quase inteiramente dependente do petróleo. E, nesse aspecto, as relações com o Japão afiguram-se primordiais, já que é o segundo maior parceiro comercial do reino saudita.  Com a incerteza que rena sobre o futuro das relações dos EUA com o Japão, a diversificação de alianças também agrada ao primeiro-ministro Shinzo Abe, que aposta num reforço militar do país e que tem contribuído para uma presença militar japonesa na região, em missões de paz.

 

O nexo entre a Ásia e o Médio Oriente é grande: dois terços das exportações petrolíferas da Arábia Saudita vão para o Sudoeste Asiático. E 83% das importações japonesas de petróleo vêm do Golfo: Arábia Saudita, Irão, Emirados Árabes Unidos, Qatar e Kuwait. Se pensarmos que 2/3 das importações chinesas de petróleo e 85% das sul-coreanas vêm do Médio Oriente, o quadro é mais explícito. Na Indonésia e na Malásia, durante a visita do rei Salman, a Saudi Aramco assinou acordos no valor de 13 mil milhões de dólares. Para o Japão, em especial, é importante que os conflitos entre sunitas e xiitas esfriem, até porque tem apostado em relações mais fortes com o Irão. Há, no meio deste cruzamento de interesses, o projecto de modernização da sociedade saudita  que pretende transformar a economia do reino. Daí que o acordo de parceria, no valor de 100 mil milhões de dólares entre o Softbank e o Fundo de Investimento estatal da Arábia Saudita, corresponda a estes interesses mútuos. Outro ponto em discussão é a OPV da Saudi Aramco, que o Japão deseja ver cotada na bolsa de Tóquio. Como pano de fundo há a rivalidade entre o Japão e a China (que fez já vários acordos com Riade), no meio da indefinição sobre qual será a política americana no Médio Oriente sob a direcção de Donald Trump. E, por isso, Tóquio e Riade não querem esperar.

 

Médio Oriente: A questão curda volta a ser essencial 

 

Os conflitos na Síria e no Iraque têm muitos protagonistas e quase todos eles com interesses diferentes. E no meio da luta contra o Daesh e entre milícias rivais e tensões entre sunitas e xiitas, surge um problema que nenhum poder local consegue ignorar: a questão curda. Mais uma vez volta a estar em cima da mesa a complexa independência do Curdistão iraquiano. Recentemente o presidente do Governo Regional Curdo do Iraque, Massoud Barzani, disse que a desintegração da Jugoslávia e da Checoslováquia eram exemplos a ter em conta: "Os curdos têm direito à autodeterminação tal como os europeus do Leste tiveram." Até agora a Turquia (fortemente interessada na questão), o Irão (que tem uma região maioritária curda) e os EUA não têm sido muito explícitos sobre o tema da independência do Curdistão iraquiano, mas todos temem que a acontecer isso abrir-se-ia uma nova zona de caos na região.

 

Ancara considera que um passo destes encorajaria os curdos da Turquia e da Síria a avançarem no mesmo sentido. A operação militar turca na região bloqueou a ideia de unificar os diferentes cantões curdos no Norte da Síria, mas o certo é que alguns olham para o mapa político da Síria após o fim do Daesh. A zona de influência dos curdos sírios a norte parece merecer alguma simpatia da Rússia e o apoio dos EUA. Afinal os curdos têm sido utilizados pelos EUA como a sua força terrestre de combate. E os russos também jogam a cartada curda, como provou a realização em Moscovo, em Fevereiro, da conferência nacional curda, que juntou forças curdas do Irão, Turquia, Iraque e Síria. Até agora os curdos sírios e iraquianos não se têm aliado  apesar dos esforços da administração Obama para os juntar. E o PKK dos curdos turcos têm combatido os curdos iraquianos de Barzani, como se provou agora com um ataque a "pipelines" de Kirkuk. Resta saber após a derrota do Daesh que alianças se forjarão na região. E qual será o lugar dos curdos nelas.

 

China: aviso aos EUA

 

Os EUA não conseguirão sobreviver sem contarem com a China como parceiro comercial, a segunda maior economia do mundo, de acordo com o ministro do Comércio da China, Zhong Shan. Segundo ele: "Os amigos americanos e ocidentais pensam sempre que a China não conseguirá sobreviver sem os EUA. Mas penso que só têm parte da razão neste pensamento. A verdade é que os EUA não sobreviverão sem a China." E referiu que 26% das exportações de aviões da Boeing, 56% da soja americana, 16% dos automóveis e 15% dos semicondutores têm como destino a China.

 

China/Países lusófonos: comércio aumenta

 

O comércio entre a China e os países de língua portuguesa atingiu 8.281 milhões de dólares em Janeiro de 2017, valor que representa um acréscimo homólogo de 7,52%, de acordo com dados oficiais chineses divulgados pelo Fórum de Macau. Angola e Brasil foram responsáveis em Janeiro por 92% das trocas comerciais entre a China e os oito países de língua portuguesa com um total de 7.625 milhões de dólares. Portugal surge em terceiro lugar em termos de valor com trocas comerciais que se situaram em 407 milhões de dólares (-16,85%), com exportações chinesas no montante de 259 milhões de dólares (-19,52%) e exportações portuguesas no valor de 147 milhões de dólares (-11,66%).  

 

Macau: papel na "Uma Rota"

 

Macau pode vir a ter um papel importante em termos económicos e financeiros no âmbito da iniciativa "Uma Faixa, Uma Rota", disse em Pequim o secretário para a Economia e Finanças do território, Lionel Leong Vai Tac. Citado pelo jornal Ponto Final, disse ainda que, com a constituição da Comissão de Trabalho para a Construção de "Uma Faixa, Uma Rota", o contributo de Macau no âmbito da faixa económica da rota da seda e da rota marítima da seda para o século XXI ficará mais bem definido. 

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