Fernando  Sobral
Fernando Sobral 22 de Novembro de 2016 às 19:06

As carroças de Lisboa

Muitos imperadores perderam o seu império quando os seus, ou os inimigos, conspiraram para assassiná-los. Agora a conjuração é feita pelos votantes para acabar com o poder dos governantes.

É por isso que a política requer inteligência e sabedoria. A gestão dos tempos forma parte principal da política. É esse o caminho de gelo muito fino por onde caminha Fernando Medina à sombra de Manuel Salgado, a figura que ata e desata os nós e os laços em Lisboa. Com uma cidade intransitável, à espera que tudo fique um brinquinho a tempo das autárquicas e que a memória dos cidadãos seja de galinha, Medina sorri entre anúncios. Apostado em criar uma cidade para turistas onde os alfacinhas estão um pouco a mais, já que a pressão imobiliária os atira para fora do perímetro central, Medina quer fazer de Lisboa um postal ilustrado para quem vem aqui em lazer. É um sonho como qualquer outro.

 

Hoje é impossível alguém mover-se com celeridade no centro de Lisboa. Governos anteriores destruíram a Carris e o Metro (o de Passos Coelho, então, esmerou-se com a sua cegueira ideológica de privatizar a qualquer custo as transportadoras), tornando-as inoperantes e irracionais. Mas a verdadeira estratégia de Medina e Salgado é o outro lado da moeda: pressionar os cidadãos para viver na periferia (destinada ao usufruto externo e à aposta no imobiliário que poucos portugueses poderão adquirir ou arrendar). Iremos, a prazo, ter parques de estacionamento nas periferias (azar dos presidentes dos concelhos limítrofes) e transportes que, no centro, estarão cada vez mais destinados às hordas de turistas que hoje já os entopem. Lisboa merece bons transportes públicos e não carroças a gasolina e electricidade que aparecem quando aparecem. A transferência da Carris para a CML, à primeira vista, parece ser luminosa e inteligente. Não é uma empresa onde a lógica de lucro deva estar em primeiro lugar. Resta agora saber que interesses reais ela vai servir. E se vai servir os cidadãos. Ou apenas os que a visitam.

 

Grande repórter

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comentários mais recentes
Mr.Tuga Há 2 semanas

Certíssimo!
E o resto do sitio igual!
O Porto está a virar um grande HOTEL para turistas! O povo que paga impostos é atirado para as periferias...
Vergonha de sitio atrasado que trata melhor os turistazecos estranjas que os pagantes de impostos!

Anónimo Há 2 semanas

Foram-se as carrocas ficaram que as transportavam(puxavam),ainda bem,caso contrario o carnaval de rua feito pelos taxistas ia ser de dias ou meses.