Sérgio Pratas
Sérgio Pratas 16 de agosto de 2017 às 20:05

As coletividades de cultura, recreio e desporto - cigarras ou formigas?

A economia social integra um conjunto muito diversificado de entidades, referenciadas pela Lei de Bases. Algumas que todos identificam com a economia social. Outras que, sendo menos conhecidas, são por vezes associadas a ideias difusas, pouco fundamentadas e até preconceituosas.

Integram-se neste último grupo as coletividades de cultura, recreio e desporto. Na sua maioria entidades pequenas (com orçamentos reduzidos), que surgem espalhadas por todo o país, e que assumem hoje uma importância crescente. É o que procuraremos demonstrar, a partir de algumas evidências.

 

A primeira nota é histórica. Para sublinhar que o surto de associações voluntárias com objetivos de cultura e recreio - conhecidas como sociedades - teve início durante a década de trinta do século XIX. Realidade a que não é alheia a vitória liberal de 1834. As sociedades constituíam espaços de sociabilidade, mas também de diferenciação e de distinção. Por regra, as mulheres não entravam. E era comum os estatutos limitarem o acesso à "casa da associação" aos "cidadãos moral e civilmente bem reputados".

 

O número e o papel das coletividades foram entretanto evoluindo, sempre em estreita ligação com as funções e as características de cada tipo de Estado. A difusão dos ideais republicanos contribuiu para um novo florescimento associativo, em fins de oitocentos. Com o denominado "Estado Novo" impera o controlo estatal relativamente à vida das associações - é um período negro. Mas a dinâmica, entretanto interrompida, é novamente retomada com o 25 de Abril e a Constituição de 1976 - assistindo-se a um novo surto, o terceiro da história das coletividades.

 

Atualmente as coletividades (cerca de 30.700) representam mais de metade das entidades da economia social. É a maior rede social do país, desempenhando um papel essencial na integração e coesão sociais, no combate à discriminação e ao isolamento. São um fator determinante para a saúde individual e comunitária e na promoção do sentimento de comunidade. E são incontornáveis no acesso por todos à cultura, ao desporto e ao lazer (direitos fundamentais). Além de constituírem um importante fator de dinamização económica e uma peça essencial no funcionamento da democracia.

 

Isso não significa que esteja tudo bem ou que seja o fim da história. As coletividades têm pontos fracos: por exemplo, a fraca interligação e coordenação entre si e algum conservadorismo. E confrontam-se com sérias ameaças: como a precariedade e a desregulação do tempo de trabalho, que dificultam o recrutamento de dirigentes, ou a existência de legislação anacrónica e desajustada. Além disso, é ainda possível fazer mais e melhor - e todos ganharíamos com isso. E como? Por exemplo, apostando na capacitação dos dirigentes, garantindo mais investimento no conhecimento e no apoio técnico às coletividades, revendo a legislação associativa, ou reforçando substancialmente as parcerias (público-sociais, sociais-sociais e privado-sociais) - tudo fatores críticos na edificação de um movimento associativo mais forte.

As coletividades são as formiguinhas da economia social. Pequenas, em grande número, incansáveis trabalhadoras. Mas formigas que acreditam no desenvolvimento integral do Homem - que a cultura, o repouso, o lazer e a ação coletiva são componentes essenciais da felicidade humana. E todos os dias dão o seu contributo para a construção de uma sociedade mais justa, mais solidária e mais democrática.

 

Formação pós-graduada em Economia Social

 

Estão a decorrer as candidaturas a diversos cursos de pós-graduação e mestrados sobre Economia Social, em estabelecimentos de ensino superior portugueses.

 

Na maioria dos casos, este processo encerrará nas primeiras semanas de setembro.

 

De acordo com o levantamento efetuado, a oferta formativa, para o próximo ano letivo, compreende cinco pós-graduações e quatro mestrados.


Pós-graduações

 

Gestão de Organizações de Economia Social - Universidade Católica Portuguesa (Porto)

 

Gestão de Organizações de Economia Social - Instituto Superior de Serviço Social do Porto

 

Economia Social - Cooperativismo, Mutualismo e Solidariedade - Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

 

Economia Social - Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas - U. Lisboa

 

Economia Social e Solidária e Desenvolvimento Local - Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (Lisboa).

 

Mestrados

 

Economia Social - Universidade do Minho

 

Economia Social - Universidade Católica Portuguesa (Porto)

Gestão de Organizações de Economia Social - Escola Superior de Gestão e Tecnologia do Instituto Politécnico de Santarém

 

Economia Social e Solidária - ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa.

 

Vice-presidente da direção da Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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