Fernando  Sobral
Fernando Sobral 15 de março de 2017 às 20:16

As decisões Freddie Krueger

Por vezes Portugal parece um museu de cera: derrete-se cada vez que uns raios de sol surgem. O seu drama não é complexo: não tem elites ou a generalidade das que tem são curtas de ideias e deficitárias sobre o que querem para o país.

E, como se sabe, um país sem elites é como um morango feito na estufa: é bonito, mas falta-lhe sabor. Um exemplo mostra como a pretensa elite portuguesa é semelhante ao célebre Bip Bip: é célere a falar, mas não decide. Por vezes, fica-se com a noção de que o país não é governado: governa-se ou vive numa autogestão controlada por alguém na sombra. A edificante entrevista de Assunção Cristas ao Público deixaria estarrecido o Abominável Homem das Neves, há muito habituado ao gelo. Segundo a líder do CDS, no Conselho de Ministros do seu tempo nunca se discutiu os problemas do BES. Sobre a "resolução" do BES, estava de férias e, como não houve discussão, assinou de cruz. A banca era, pelos vistos, um tema que Passos Coelho considerava uma espécie de Freddie Krueger, algo que poderia perturbar a santa paz do seu reinado. O assunto era, aparentemente, delegado em Carlos Costa. Quando se olha o incêndio do sector financeiro (BES, Banif, CGD e Montepio), que não nasceu neste último ano, fica-se com a sensação de que Passos Coelho vivia noutro planeta. 

 

As memórias de Assunção Cristas são um tiro na testa de Passos Coelho. É por isso que a verdade sobre o fim do BES ainda vai no adro. Se o BdP aprovou a resolução, tinha de haver uma decisão política do Governo. Houve. Mas com ministros que tinham uma venda nos olhos e algodões nos ouvidos. E uma fita adesiva na boca. Parece uma decisão digna de um quadro do período surrealista de Salvador Dalí. Se Portugal era governado assim sobre um pilar essencial do país, o sector financeiro, o que poderíamos esperar de outros sectores? Fazia-se um piquenique em que se falava de borboletas antes de elaborar um novo código do trabalho? Tudo isto não é grave: é um verdadeiro momento de delírio governativo. Ou então, pior, era uma estratégia requintada.

 

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comentários mais recentes
Anónimo Há 1 semana

SOBRAL DIZ TUDO EM POUCO ESPAÇO.SEMPRE AQUI DISSE Q PASSOS E AQUELA GENTE NÃO TINHAM A MENOR IDEIA DO Q É GOVERNAR NUNCA SOUBERM O Q É UMA EMPRESA E PASSOS DESLUMBROU-SE COM A GOVERNAÇÃO AO PONTO DE AINDA DORMIR COM O PIN NA GOLA DO PIJAMA.TIVEMOS JUNTOS O PIOR P.R. O PIOR GOVERNO E A PIOR OPOSIÇÃO

Mr.Tuga Há 1 semana

São as "elites" que temos....
Como as que saem do Largo dos RATOS!

Anónimo Há 1 semana

Como sempre um grande artigo.Em poucas palavras é claro com a água