Daniel Gros
Daniel Gros 21 de novembro de 2017 às 14:00

As lições demográficas do Japão para a Europa

A primeira lição da experiência do Japão é que, apesar da dificuldade da Zona Euro em gerar inflação numa sociedade a envelhecer e que é caracterizada pelo excesso de poupanças, o crescimento não está fora do alcance.

A demografia não determina o destino, pelo menos não totalmente. Nos países, as políticas podem afectar as decisões em torno da fertilidade e a migração pode transformar um país, como mostra a experiência dos Estados Unidos. Contudo, em horizontes temporais mais curtos, as tendências demográficas têm de ser dadas como adquiridas e podem ter um impacto profundo no crescimento. Ainda assim, os factores demográficos são frequentemente negligenciados nos relatórios económicos, o que leva a distorções significativas na avaliação do desempenho dos países. Em nenhum local isto é mais visível do que no Japão.

 

A produção real – uma medida fundamental do desempenho económico – cresceu apenas cerca de 15% desde 2000, ou menos de 1% ao ano, e o Japão parece a menos dinâmica das grandes economias mundiais. Mas dada a demografia japonesa – a população activa do país tem vindo a encolher em cerca de 1% ao ano desde o início desde século – este resultado é notável.

 

De facto, a taxa de crescimento do Japão por pessoa em idade activa é próxima de 2% - muito mais elevada do que nos EUA ou na Europa. Apesar de a economia norte-americana ter crescido mais de 35% desde 2000, a sua população em idade activa também cresceu acentuadamente, deixando a taxa de crescimento anual por pessoa em idade activa em apenas cerca de 1%.

 

Esse indicador – taxa de crescimento por pessoa em idade activa – não é muito usado pelos economistas, que em vez disso, focam-se no PIB per capita. Por essa medida, o Japão está a ter um desempenho muito próximo da Europa e dos EUA. Mas, enquanto os indicadores per capita são úteis para avaliar o potencial de consumo de um país, não dão uma imagem adequada do potencial de crescimento porque incluem tanto os mais velhos como os mais novos, que não contribuem para a produção. Mesmo no Japão, com a sua elevada esperança média de vida, aqueles que têm mais de 70 anos não contribuem muito para a produção.

 

Assim, dado que o seu potencial está em queda rápida, o Japão tem sido extraordinariamente bem-sucedido. Um motivo fundamental é que colocou uma proporção crescente da sua população em idade activa a trabalhar: o desemprego hoje está num mínimo histórico abaixo de 3% e quase 80% daqueles que podem trabalhar têm um trabalho, comparado com os cerca de 70% na Europa e nos EUA.

 

O facto de o Japão ter alcançado o pleno emprego e um crescimento elevado do emprego durante as últimas duas décadas é o mais notável, isto perante a perspectiva de uma deflação quase permanente durante este período (a maioria dos preços continua hoje abaixo do que eram há 15-20 anos). Isto deve dar motivos para reflexão àqueles que mantêm que a deflação impõe custos económicos insuportáveis.

 

A experiência japonesa deve representar uma lição importante para a Europa, onde o futuro demográfico se parece muito com o passado japonês. A população em idade activa na Zona Euro não cresceu nos últimos anos e vai, em breve, começar a cair a um ritmo semelhante ao do Japão na última geração. Parece pouco provável que a imigração altere esta tendência. Nos últimos anos, os europeus, tal como os japoneses, provaram ser muito resistentes à imigração em larga escala, o que seria exigido para compensar o declínio demográfico.

 

Além disso, a Zona Euro atingiu um excedente da conta corrente de cerca de 3% do PIB. Isto é semelhante ao nível há muito atingido pelo Japão (excepto num curto período de tempo no rescaldo do acidente nuclear em Fukushima, em 2011).

 

A primeira lição da experiência do Japão é que, apesar da dificuldade da Zona Euro em gerar inflação numa sociedade a envelhecer e que é caracterizada pelo excesso de poupanças, o crescimento não está fora do alcance. Em vez disso, dado o crescimento recorde do Japão sem inflação, o Banco Central Europeu deve reconhecer que a sua meta da inflação "próxima de 2%" pode não ser assim tão importante. Em qualquer caso, as particularidades da estrutura da Zona Euro significam que o BCE não vai ter escolha a não ser colocar um travão nas suas operações de compra de obrigações num ano ou por aí. Isto significa que o BCE não vai ser capaz de seguir os passos do Banco do Japão, que continua a comprar grandes volumes de obrigações do governo, sem qualquer subida visível da inflação.

 

Outra lição do Japão é que um país com um grande excedente de poupanças pode lidar com uma grande dívida pública porque esta pode ser financiada internamente. Isto não significa necessariamente que é desejável acumular dívida. O rácio de dívida face ao PIB do Japão supera agora os 150% do PIB (tendo em conta a grande quantidade de activos financeiros detidos pelas instituições de poupanças que pertencem ao governo) e continua a subir devido ao elevado défice orçamental.

 

Isto traz-nos para a principal lição do Japão: numa economia com um baixo crescimento, o rácio de dívida face ao PIB pode rapidamente deixar de estar sob controlo. Felizmente, parece que essa lição já foi aprendida, com os défices, em média, na Zona Euro, a representarem apenas cerca de 2% do PIB. O limite ao défice imposto pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento (de 3% do PIB) parece ter tido algum impacto em termos de estabilização do rácio de dívida.

 

A estrutura da Zona Euro coloca limites tanto ao uso de políticas monetárias como orçamentais. Isto deve evitar uma acumulação excessiva de dívida, fazendo com que seja mais fácil para a Zona Euro gerir um futuro no qual a única maneira de manter o crescimento é capitalizar totalmente o decrescente potencial demográfico da economia.

 

Daniel Gros é director do Centro de Estudos Políticos Europeus.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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mais votado Anónimo 21.11.2017

Os europeus, Portugal incluído, são vítimas da Sharia, anti-liberal e inerentemente anti-mercado, dos direitos adquiridos. A mesma que defende o direito ao trabalho dê por onde der e os empregos e generosos benefícios sociais garantidos para a vida toda e sempre a subir, o keynesianismo despesista do tipo que ordena a abertura de buracos nas ruas só para depois os ter que tapar logo de seguida e assim ver o PIB anual crescer por virtude de um efeito multiplicador quase bíblico que acaba sem pão ou sem peixe alguns para a multidão e o esquema em pirâmide da Segurança Social estatal cuja base se estreita a cada ano que passa e desemboca na imigração "open door", sem critérios de selectividade orientados para as reais necessidades ditadas pelas forças de mercado a cada momento. Nos condomínios fechados para as elites cada vez mais enclausuradas, como One Hyde Park, muitos deles financiados por Estados islâmicos, tudo está tranquilo...

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Anónimo 21.11.2017

Os europeus, Portugal incluído, são vítimas da Sharia, anti-liberal e inerentemente anti-mercado, dos direitos adquiridos. A mesma que defende o direito ao trabalho dê por onde der e os empregos e generosos benefícios sociais garantidos para a vida toda e sempre a subir, o keynesianismo despesista do tipo que ordena a abertura de buracos nas ruas só para depois os ter que tapar logo de seguida e assim ver o PIB anual crescer por virtude de um efeito multiplicador quase bíblico que acaba sem pão ou sem peixe alguns para a multidão e o esquema em pirâmide da Segurança Social estatal cuja base se estreita a cada ano que passa e desemboca na imigração "open door", sem critérios de selectividade orientados para as reais necessidades ditadas pelas forças de mercado a cada momento. Nos condomínios fechados para as elites cada vez mais enclausuradas, como One Hyde Park, muitos deles financiados por Estados islâmicos, tudo está tranquilo...

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