Álvaro Nascimento
Álvaro Nascimento 17 de janeiro de 2018 às 19:44

"As limitações do nosso crescimento"

A economia continua a acusar falta dos ingredientes necessários para que o crescimento seja o resultado do aumento da produtividade.

A FRASE...

 

"Posso-lhe garantir que não há soldadores, técnicos de cad-cam ou operadores de máquinas inscritos nos centros de emprego. Há um desajustamento entre as necessidades do mercado e a oferta. É um problema estrutural do país, não estamos a formar as pessoas adequadas para o tipo de empresas que temos."

 

Rafael Campos Pereira, Dinheiro Vivo, 10 de Janeiro de 2018

 

A ANÁLISE...

 

Aí está! A euforia do crescimento a ceder lugar às limitações. Por restrições do nosso modelo de desenvolvimento, como escrevi na semana passada, o dinamismo dos empresários em Portugal esbarrou com a exiguidade estrutural do produto potencial.

 

Com o emprego a crescer a um ritmo superior ao do PIB - acompanhando a deterioração do salário médio e o aumento da precariedade no mercado de trabalho - e o investimento produtivo em níveis modestos, a economia continua a acusar falta dos ingredientes necessários para que o crescimento seja o resultado do aumento da produtividade: a um quadro institucional inconsistente adiciona-se a falta de complexidade empresarial.

 

O relato das insuficiências no mercado de trabalho é revelador da debilidade das instituições em Portugal, não apenas do Estado, mas também das que decorrem da iniciativa privada. As queixas de falta mão de obra com as qualificações desejadas é fruto de várias circunstâncias, das quais realçarei apenas duas - uma pública, outra privada - para ilustrar simbolicamente as nossas fragilidades.

 

Primeiro, a proximidade entre as prestações sociais - e.g., rendimento social de inserção (RSI) - e o salário mínimo desencoraja uma atitude proativa dos trabalhadores no mercado laboral. O "prémio" remuneratório pelo trabalho - que compreende, naturalmente, as perspetivas de carreira - não é suficientemente atrativo. O alargamento do fosso entre estes dois instrumentos de política económica é desejável, regulando o funcionamento do mercado de trabalho, nomeadamente nos períodos de crescimento mais acelerado.

 

Segundo, a qualificação profissional dos trabalhadores é, também e em grande medida, uma responsabilidade do sector empresarial que - por intermédio das suas associações e individualmente - deveria estar a investir na formação e qualificação do seu pessoal, perspetivando o aumento de produtividade e a melhoria das organizações, reforçando a sua capacidade para progredir na cadeia de valor e, no longo prazo, alargar o potencial de crescimento da economia portuguesa.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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