Paulo Carmona
Paulo Carmona 25 de julho de 2017 às 00:01

As narrativas e os guardiães da fé

Hoje o delito de ter opinião diferente, na ditadura do politicamente correto, é perseguido com ódio, blasfémias e queixas judiciais. Em vez de discutir a opinião ou a mensagem, por mais idiota que seja, insulta-se o mensageiro.

A FRASE...

 

"A propósito das declarações (….), houve quem ensaiasse uma fuga indiscreta com um protesto contra o 'politicamente correto', uma espécie de censura que intimidaria a liberdade de expressão dos coitadinhos."

 

Francisco Louçã, Público, 22 de julho de 2017

 

A ANÁLISE...

 

Em tempo de férias recomendam-se livros e a discussão de temas mais leves. O livro que gostaria de recomendar é o "Triunfo dos Porcos" de George Orwell. Nesse livro, os animais de uma quinta revoltam-se e exigem uma mudança de governo, conseguindo afastar os humanos que os exploravam, por outros animais que os exploram ainda mais, mas agora em nome deles próprios. Ou seja, mudaram os responsáveis, mudou a narrativa, mas a substância ficou igual ou pior. É um livro agradável. Reparem no nosso caso. Sob a troika e os vilões Passos/Schäuble, os cortes das despesas na Administração Pública eram sádicos e destruíam o Estado Social. Os atuais cortes, 943 milhões em cativações, em cima dos anteriores cortes "destrutivos", são provavelmente em defesa dos trabalhadores e excluídos. O tema das narrativas… é definitivamente um livro para férias.

 

Agora uma perspetiva mais sombria. Cresci e vivi numa explosão espetacular de liberdade chamada 25 de Abril quando o importante era promover a liberdade e combater o fascismo. Um regime político que censurava e condenava o delito de opinião. Um regime iliberal em termos políticos e económicos, um tempo a que ninguém deseja regressar.

 

Só que a pouco e pouco os ventos de liberdade trazidos por Abril vão-se perdendo. Antes, o inimigo era o fascista e a reação que não passaria. Hoje, o monstro é o perigoso neoliberal que defende a liberdade do indivíduo face ao Estado, e a resistência a um poder coletivista e extrator voraz de recursos. Porque o modelo económico defendido é o de um Estado que tudo sabe e distribui. Apresenta-se totalitário, discricionário, permeável a corporações e amigo de grandes grupos económicos, como foi o BES, enfim um Estado de que Salazar se orgulharia. 

 

E a censura, a mentira e a ocultação voltaram. Hoje o delito de ter opinião diferente, na ditadura do politicamente correto, é perseguido com ódio, blasfémias e queixas judiciais. Em vez de discutir a opinião ou a mensagem, por mais idiota que seja, insulta-se o mensageiro.

 

Seguindo o livro, uma deriva dialética ou a regra de Lampedusa "é preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma", o país assemelha-se salazarento e esquecido da liberdade de Abril.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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comentários mais recentes
Anónimo 25.07.2017

Oh homem, foi pior mas muito pior durante os 10 anos de ditadura cavaquista ...

O PSD é o partido democrático totalitário, o partido do "chefe".

Mal por mal, antes o PS, embora não tenha ilusões!

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