As reviravoltas da política externa de Trump

Apesar da campanha de Trump (e as suas declarações erráticas e tweets caprichosos desde que assumiu a presidência), as suas políticas actuais na área da defesa e do comércio estão no caminho certo.

Durante os seus primeiros 100 dias no cargo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, inverteu muitas das posições que advogou durante a campanha presidencial em matéria de defesa e de política comercial. E esta inversão trouxe alguns resultados positivos.

 

A política de Trump em relação à China é um bom exemplo. Durante a campanha, Trump prometeu rotular a China de manipuladora de moeda no seu primeiro dia como presidente. Prometeu terminar com a política "uma só China" (reconhecimento que Taiwan é parte da China), que há muito orienta as relações sino-americanas, e impor tarifas mais elevadas às importações chinesas com o objectivo de diminuir o défice comercial bilateral.

 

Nada disto aconteceu. Trump não rotulou a China de manipuladora cambial após ter assumido a presidência. Quando, em Abril, o Tesouro dos Estados Unidos realizou a sua revisão prevista à política cambial da China concluiu que o país não era um manipulador de moeda.

 

Trump rapidamente mudou de opinião quanto à política "uma só China", dizendo ao presidente chinês, Xi Jinping, que os Estados Unidos vão continuar a aderir a esta política e convidou Xi a visitá-lo na sua residência na Flórida, Mar-a-Lago.

 

Este encontro levou à negociação de um acordo comercial liderado pelo secretário do Comércio, Wilbur Ross, no qual a China concordou em abrir o seu mercado às exportações de carne norte-americanas e a vários serviços financeiros. E os EUA concordaram em vender gás natural liquefeito à China. O resultado vai ser uma queda do défice comercial dos EUA para com a China, isto sem que tenham sido aumentadas tarifas.

 

A redução do défice comercial bilateral não vai diminuir a totalidade do défice comercial dos Estados Unidos devido à diferença que há entre o investimento e a poupança nos EUA. Um défice comercial bilateral mais baixo face à China vai apenas significar um défice comercial maior – ou um pequeno excedente – face a outro país. Apesar de a administração Trump estar errada em focar-se nos défices comerciais com cada país, ao fazê-lo com a China isso teve um efeito favorável levando a políticas que reduziram as barreiras externas às exportações norte-americanas.

 

Em relação a outros locais na Ásia, Trump alertou, durante a campanha, que a Coreia do Sul e o Japão já não podiam contar com as garantias de segurança que os Estados Unidos lhes tinham dado durante décadas. Mas quase imediatamente após ter assumido a presidência, o secretário da Defesa, James Mattis, foi a Seul garantir aos coreanos que a administração avançou com a instalação do Terminal de Defesa Aérea de Alta Altitude (THAAD, na sigla em inglês), um sistema anti-míssil, na Coreia do Sul apesar das objecções chinesas. E depois Mattis foi ao Japão dar garantias aos japoneses que continuam a contar com o apoio militar norte-americano.

 

O candidato Trump, queixando-se que os membros europeus da NATO não tinham cumprido o compromisso de gastar 2% do PIB em defesa, jurou reduzir os gastos militares dos EUA na Europa. Também criticou a NATO por não estar preparada para juntar-se à luta contra o Estado Islâmico, liderada pelos EUA.

Ainda assim, Trump voltou atrás na sua ameaça e os europeus moveram-se um pouco na direcção daquilo que os EUA tinham incitado. A proposta de orçamento federal de Trump preconiza uma subida dos gastos militares norte-americanos na Europa, enquanto os membros europeus da NATO concordaram em aumentar a sua despesa militar, indo na direcção à meta de 2% do PIB (embora não tão rápido quanto Trump gostaria). E o Conselho do Atlântico Norte, o corpo administrativo da NATO, votou recentemente para juntar-se à campanha contra o ISIS (embora não tendo um papel de combate).

 

Durante a campanha, Trump ameaçou rasgar o Acordo de Comércio Livre da América do Norte (NAFTA na sigla inglesa) a menos que chegassem a melhores condições, o que levou a novas negociações lideradas pelo representante especial dos EUA para o comércio. É ainda muito cedo para dizer quais vão ser os resultados desta negociação. É expectável que seja enfatizada a necessidade de uma redução maior de barreiras comerciais específicas que impedem exportações norte-americanas para o México e para o Canadá. Por exemplo, será um erro limitar as exportações de madeira do Canadá para os EUA alegando que o governo canadiano dá subsídios a estas exportações. As barreiras às importações apenas prejudicam os construtores e compradores de casas norte-americanos.

 

Não sei porque é que o presidente Trump mudou as suas posições para umas tão diferentes daquelas que advogou durante a campanha. Terão os funcionários de nível ministerial convencido Trump que as suas posições iniciais estavam erradas? Acreditará ele que é melhor delegar a tomada de decisão sobre estes temas a esses funcionários? Ou as suas promessas na campanha tinham como objectivo atrair eleitores em vez de revelar as suas perspectivas? Provavelmente nunca vamos saber.

 

A política interna é diferente. Recentemente, a administração divulgou um plano orçamental a dez anos, que tem sido correctamente criticado pela ausência de coerência e falhas ao descrever, de forma explícita, as políticas fiscais. Mas as políticas orçamentais são diferentes de políticas de segurança internacionais porque o Congresso norte-americano toma decisões sobre impostos e despesa. O plano de Trump propõe cortes nos gastos ao nível doméstico que o presidente tem de saber que o Congresso não vai aceitar. E as projecções para um orçamento equilibrado ao fim de dez anos são necessárias, de acordo com as regras do Congresso para que quaisquer que sejam as mudanças fiscais que ocorram possam ser permanentes. Mas para encontrar detalhes das potenciais mudanças fiscais, eu continuo a olhar para os planos desenvolvidos durante os últimos anos pelo presidente da Câmara dos Representes, Paul Ryan, e os seus colegas.

 

Apesar da campanha de Trump (e as suas declarações erráticas e tweets caprichosos desde que assumiu a presidência), as suas políticas actuais na área da defesa e do comércio estão no caminho certo. Continuo esperançoso que as políticas fiscais desenvolvidas no Congresso tenham enquadramento para as desejadas reformas nos impostos sobre as pessoas e empresas.

 

Martin Feldstein é professor de Economia na Universidade de Harvard e presidente emérito do Departamento Nacional de Investigação Económica, e presidiu ao Conselho de Assessores Económicos do Presidente Ronald Reagan de 1982 a 1984.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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