José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 12 de julho de 2017 às 20:27

As revoluções vêm aos pares

Na revolução industrial 1.0, os camponeses tornados excedentários pela revolução verde foram absorvidos por uma indústria em expansão, para a qual, porém, davam um contributo indiferenciado e, logo, modestamente remunerado.

A FRASE...

 

"Mais automação pode ser bom no longo prazo, mas a História diz-nos que haverá turbulência pelo caminho."

 

Tyler Cowen, Bloomberg, 16 de fevereiro 2016

 

A ANÁLISE...

 

As revoluções económicas são ótimas para duas coisas: crescimento e agitação política. Saltos tecnológicos, como as revoluções industriais, ou alterações na organização espacial da produção, como as globalizações, provocam uma explosão da produção e do rendimento. Melhor é impossível… será? É que a certeza de prosperidade no longo prazo é contrabalançada pela incerteza das condições de vida no curto prazo. Acresce que durante as revoluções económicas, os menos adaptados à nova realidade produtiva sofrem perdas relativas na sua condição material, gerando desigualdade.

 

Na revolução industrial 1.0, os camponeses tornados excedentários pela revolução verde foram absorvidos por uma indústria em expansão, para a qual, porém, davam um contributo indiferenciado e, logo, modestamente remunerado. Após gerações na agricultura, hordas imensas tiveram de abraçar a incerteza e o desconforto da vida citadina nos primórdios da era industrial, sem ganho discernível de rendimento, que só os capitalistas e os trabalhadores diferenciados lograram garantir. Inevitavelmente, a incerteza e a desigualdade inerentes à revolução económica propiciaram a revolução política, inflamada pelo marxismo.

 

Que o século XX tenha sido o mais violento da história da humanidade deve-se aos efeitos políticos da mudança de paradigma económico. Daí que se tenha tornado óbvia, no Ocidente do pós-Guerra, a necessidade de mitigar os efeitos de curto prazo das transformações económicas, através da criação do Estado social, que passou a garantir patamares mínimos e universais de conforto. Só que essa estratégia retirou o incentivo de adaptação dos trabalhadores às mudanças da realidade produtiva, criando um problema de crescimento no longo prazo, sobretudo face a países onde a consciência social é menor. Parece que as revoluções andam aos pares e que não há muito a fazer. Isto significa que podemos ter um problema sério, pois a globalização já criou uma revolução política (Brexit, Trump, etc.) e a indústria 4.0 está a bater à porta.

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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