Fernando  Sobral
Fernando Sobral 29 de Novembro de 2016 às 19:10

As sandálias de Centeno

Um sapiente político catalão dizia há alguns anos que: "Para se subir o Everest não se pode ir com sandálias." Essa montanha, o tecto do mundo, está coberta de gelo. Não é para exploradores com os pés frágeis ou habituados ao clima agradável do ar condicionado.

Começou aí o grande erro de Mário Centeno com a escolha de António Domingues para administrar a CGD, o monte Everest do sistema bancário português. Melhor: uma das poucas armas de fogo do poder português numa economia globalizada e onde a fragilidade do capital nacional leva a que quase todos os sectores estratégicos estejam nas mãos de capitais estrangeiros. É o que temos e mais Portugal não pode. Mas se há anos alguns mais incendiários, como Passos Coelho, desejavam a privatização da CGD, imagina-se o que daí viria para a economia nacional e para o poder da nação. 

 

Só que o monte Everest do sistema financeiro português tem algo de fossas das Marianas, o lugar mais profundo do oceano. Lá, todos se podem perder para sempre. Foi essa vertigem que atingiu António Domingues, que quis tornar possível algo que era politicamente impossível. Depois, o erro foi do xerpa Mário Centeno, obviamente pouco talhado para fazer alpinismo político. Ele quis escalar o Everest com sandálias. Só que este é um trajecto que precisa de pessoas com botas de alpinista e não com a certeza de que podem fazer a escalada com sandálias. O erro de António Domingues foi mais uma derrota política de Centeno e da sua equipa de exploradores incautos. Com esta escolha e com os contornos da sua execução, Centeno ia pondo em causa o que é fundamental: recapitalizar o banco público e torná-lo um elemento essencial na economia nacional. Se Domingues se tornou um alpinista vítima de si próprio, Centeno carrega a culpa do desastre. E a escolha de Domingues foi um erro político de que António Costa não sai sem se salpicar. Estas sandálias causaram bolhas nos pés de Centeno. Típicas de quem anda há demasiado tempo a confundir matemática com política.

 

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comentários mais recentes
Boa intencao mas nao chega.. Há 5 dias

O problema e',continua a ser,como ja o foi anteriormnte,quando o(s) Centeno/Costa e PS acreditam q conseguem ultrapassar/neutralizar de"igual para igual"o poder politico do loby economico financeiro combinado com o controlo q tem sobre os media e intreicheirados no PPD/CDS.So a boa vontade nao chega

5640533 Há 5 dias

E por que a ideia de se privatizar a CGD é incendiária? Com certeza que nos custaria menos.

Mr.Tuga Há 5 dias

E o aldrabão Sr. tranquilo do Costa a passar incólume como se nada tivesse a ver com o assunto. Quando corre bem ele é o grande mentor! Quando corre mal, nada tem a ver com o caso... Tipo os XEO`s, como o Salgadeiro e o Zeinaldo...