David Bernardo
David Bernardo 18 de abril de 2017 às 20:42

As seguradoras tradicionais vão sobreviver à transformação digital? 

Com tanta capacidade financeira e marcas conhecidas porque é que as seguradoras não reagem? O grande desafio que as grandes seguradoras têm de vencer é a herança.

Na semana passada, estive em Londres no "Innovate Finance Global Summit", onde se discutiram os grandes temas de inovação no setor de finanças, o qual tem sido "atacado" por várias start-ups que já tomaram parte relevante do negócio ("paypal", "revolut", "wealthfront", etc.). No entanto, parece-me que, mesmo antes das Fintech, a política do BCE e de outras entidades que promovem, irão continuar a criar imensas dificuldades ao que resta da banca portuguesa, pelo que, vou passar a outro setor que me chama a atenção. "Insurance tech" ou "insurtech", as empresas de tecnologia que estão a desafiar as seguradoras.

 

O setor de seguros, caracterizado por grandes empresas com margens razoáveis, tem estado protegido por barreiras à entrada como é o caso da legislação e do grande capital necessário. No entanto, estas barreiras começam a não ser suficientes se pensarmos que muitas vezes as start-ups conseguem passar ao lado da legislação (Uber e Airbnb?), e por outro lado, o acesso ao capital não é tão difícil. Oscar, uma start-up em Nova Iorque de seguros de saúde, já levantou cerca de mil milhões de dólares junto de investidores, como a Goldman Sachs.

 

Quem já ouviu os amigos dizerem "que bom é comprar um seguro"? A experiência e os produtos estão normalmente inadequados às necessidades do consumidor atual, em parte, por falta de enfoque no cliente. E é aqui que estas start-ups aparecem. Focadas no cliente e com tecnologia mais adequada (e muitas vezes mais barata), conseguem oferecer melhores experiências e reagir mais depressa ao mercado. Este setor, que em teoria deveria ter um avançado tratamento de informação e de dados, na realidade e na maioria dos casos ficou parado no tempo e não tem o perfil completo dos clientes para lhes permitir personalizar os serviços. E quando falamos de dados não são só start-ups que ameaçam, a Tesla, por exemplo, já começa a vender seguros com os seus automóveis. Porque uma pessoa que conduz um automóvel 100 km por mês deve pagar o mesmo que outra que conduz 2.000 km? O Google (Alphabet), também especialista em dados, começa a ter uma carteira de investimentos em seguros relevante. Ao mesmo tempo, novos modelos de negócio e serviços estão também a aparecer: comparadores de valor (em vez de preço), seguros por tipo de utilização, seguros p2p, Internet das Coisas, e seguros de cibersegurança, entre outros.

 

Mas com tanta capacidade financeira e marcas conhecidas porque é que as seguradoras não reagem? O grande desafio que as grandes seguradoras têm de vencer é a herança. Se a herança tecnológica é difícil (já que muitos dos novos desenvolvimentos são caros e lentos), a cultural e de recursos humanos é ainda mais complicada. As seguradoras, para mudarem, precisam de pessoas com experiência em digital e de uma grande motivação por parte da direção-geral para assumir essas transformações. Ao mesmo tempo a tecnologia apresenta um potencial de melhora de rentabilidade muito elevado com uma potencial redução de custos de distribuição e uma melhoria da eficiência de processos.

 

É uma corrida contra o tempo, as seguradoras têm de conseguir fazer esta transformação digital antes que as start-ups ganhem escala. Esperemos que não seja mais um setor onde as grandes empresas morrem devagar. Quanto mais tarde, maior e mais difícil será o caminho a percorrer. E se não podes vencê-los, como já se provou noutros setores, junta-te a eles.

 

Partner litsebusiness.com e professor de e-commerce e marketing digital na Nova SBE

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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