Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 08 de dezembro de 2016 às 20:15

As vantagens das desvantagens

As vantagens ou as desvantagens, físicas e mentais, são relativas. E hoje podem significar uma coisa e amanhã outra. Nem sempre os mais fracos e os menos experientes perdem.

Se olharmos para as guerras entre países muito grandes e muito pequenos, com uma diferença de dez para um em termos de população e de forças armadas, constatamos que nos últimos duzentos anos quase um terço dessas guerras foram ganhas pelos mais pequenos, refere o investigador Arreguín-Toft na obra "How the Weak Win Wars". Determinação, inovação, tecnologia, motivação, liderança, acaso - muito pode alterar o resultado esperado.

 

Pode não ser vantajoso ser o mais forte. Um estudo sobre xadrezistas de topo mundial concluiu que os jogadores com um quociente de inteligência (QI) mais elevado tendem a não ser os melhores… Jogadores com QI medianos tendem a treinar mais e acabam por ir mais longe. Quem se sabe com uma desvantagem, mas treina com determinação, exigência e não se vai abaixo, tende a chegar ao topo.

 

Entre irmãos, os mais novos podem ter vantagens. Mozart era o mais novo de seis irmãos. As irmãs Williams no ténis de alta competição são das melhores tenistas de sempre; e a mais nova, Serena, ganha bem mais do que a mais velha. No xadrez, as três irmãs Polegar, Sofia, Susan e a mais nova Judite, afirmaram-se como as melhores xadrezistas de todos os tempos. Judite foi a melhor entre as três e um(a) do(a)s melhores de sempre - Grande Mestre aos 15 anos, batendo o recorde de Bobby Fisher, venceu "génios", como Kasparov ou Karpov.

 

Porquê Judite, porquê Serena, porquê Mozart? Porquê os mais novos? Nem sempre é assim, evidentemente; mas quando o ambiente é de aprendizagem e melhoria contínua, e os métodos também melhoram, aí os mais novos beneficiam mais das novas práticas de sucesso; treinam mais tempo com métodos melhores e por isso vão mais longe.

 

Outro caso, com resultados na mesma linha, parece ser o de infâncias difíceis, com mudanças, incertezas e dificuldades. Uma investigação publicada no Journal of Personality and Social Psychology chama a atenção que mudar, individual e socialmente, é uma capacidade importante para quem vive num mundo incerto. Nesse estudo, antecipou-se que as crianças que tivessem crescido em contextos de incerteza teriam vantagens na capacidade de mudar, mas estariam pior nas capacidades de se manterem focadas no mesmo assunto ao longo de muito tempo. As experiências aceitaram estas hipóteses. Quando falamos de flexibilidade profissional, quem teve um infância conturbada - mudanças de casa, de agregados familiares, de trabalhos dos pais, etc. - pode de facto ser mais apto do que quem teve uma infância mais estável.

 

As vantagens ou as desvantagens são relativas. Tudo depende de como reagimos, do que aprendemos e de como inovamos e surpreendemos.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

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